Teste: Renault Kwid E-Tech 2026 é o elétrico mais barato do Brasil; vale?
Hatch elétrico mantém o preço de R$ 99.990 mesmo depois de ser reestilizado, mas tem vida dura com o BYD Dolphin Mini, que vende muito mais
A movimentação das marcas chinesas no Brasil resultou em mudanças visíveis nos preços dos carros. Foi aí que a Renault agiu rápido colocando um valor de tabela de R$ 99.990 para o Kwid E-Tech 2026, atualmente o modelo elétrico mais barato do país. A estratégia é clara: mesmo renovado, o compacto francês quer revidar o preço competitivo do seu rival direto, o BYD Dolphin Mini, que custa R$ 119.990. Mas será que vale pagar esse valor por ele?
A prova mais clara de como as chineses sacudiram essa questão dos preços é que o Kwid E-tech foi lançado no Brasil em 2022 por R$ 142.900. Ou seja, quatro anos depois, o elétrico teve redução de R$ 42.910 para ficar mais competitivo. Na prática, porém, essa não foi (ou é) uma tarefa fácil, visto que os chineses avançam cada vez mais no custo-benefício.
E mesmo também sendo o mais barato, o Kwid E-Tech tem bastante dificuldade em emplacar nas vendas. No ranking de 2025, por exemplo, o hatch aparece apenas em 10° lugar entre os elétricos mais vendidos, com 1.093 vendas, de acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Muito distante do líder Dolphin Mini, que emplacou nada mais nada menos do que 32.486 unidades. E logo nos primeiros momentos tentei entender o motivo do francês vender tão pouco.
O Kwid E-Tech foi lançado no Brasil em 2022, mas foi no ano passado que ele recebeu uma renovação intensa, com visual inspirado no Dacia Spring vendido na Europa, o que o distanciou bastante do irmão a combustão. Com isso, o Kwid elétrico se tornou mais atrativo, com o apelo do bom custo-benefício. Afinal, se aproxima até mesmo de carros 1.0 aspirados. Para um efeito de comparação, um Hyundai HB20 Limited, com câmbio manual, custa R$ 99.290. Enquanto isso, o Kwid "padrão" tem preço a partir de R$ 78.290.
Renault Kwid E-Tech - dimensões e espaço
E aqui vem a primeira questão: o Kwid E-Tech é homologado para apenas quatro lugares, enquanto o Dolphin Mini oferece apenas opção para cinco passageiros atualmente. E apesar deste ser um ponto fraco do modelo, pensei que ajudaria em um melhor espaço na segunda fileira, mas me enganei. O hatch faz jus à palavra “compacto”, com 3,73 metros de comprimento e 2,42 m de entre-eixos. Isso faz dele 5 cm menor que o BYD, e com o entre-eixos 8 cm inferior.
Um ponto importante de ressaltar é que, desde 2020, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) fez uma resolução para que carros produzidos e importados para o Brasil deverão atender a uma regra específica: o assento traseiro do meio deve vir, obrigatoriamente, com o cinto de segurança de três pontos e apoio de cabeça em cada uma das posições. Portanto, homologar o carro para quatro pessoas pode ser uma estratégia de poupar custos com esses acessórios.
Eu tenho 1,60 m de altura e, embora tenha um bom espaço para as pernas, a disposição faz com que você se sinta apertado no carro, mesmo com um posicionamento razoável para os joelhos. Só que vamos ser práticos: claramente, pessoas com 1,80 m (para mais) vão ficar mais apertadas com carros deste porte, não só no Kwid.
O que piorou um pouco a minha experiência foi a falta de itens para os passageiros, como uma porta USB ou uma saída de ar-condicionado. E é a partir desse ponto que começamos a ver algumas reduções de custos do modelo, como não ter apoio de braço macio nas portas traseiras. Outras economias ainda serão muito debatidas neste texto.
De fato, não posso dizer que o Kwid não mudou por dentro. Apesar do design simples, a cabine ficou mais moderna e com mais espaço para o motorista, o que ajudou muito na vida a bordo. Porém, o acabamento ainda é um calcanhar de Aquiles, com muito plástico rígido e peças mal encaixadas, como no próprio painel, na coluna do volante e na parte perto do porta-luvas. Pensando no Dolphin Mini e em outros modelos chineses, como o Geely EX2 que parte de R$ 119.990, conseguimos observar como esses carros estão à frente nesse quesito.
Equipamentos e segurança do Renault Kwid E-Tech
Nem tudo são espinhos, já que temos pontos que melhoraram no pequeno da Renault. Exemplo disso são as duas telas digitais, sendo o painel de instrumentos digital de 7” e a central multimídia de 10”, com conexão sem fio para Android Auto e Apple CarPlay, além de câmera de ré — com uma qualidade de imagem simples. A multimídia é bem intuitiva e até melhor que a do Kardian. Eu tive uma certa dificuldade para conectar meu Android, mas depois a conexão é feita de forma automática e não travou nenhuma vez.
Ainda temos o volante multifuncional com ajuste (apenas) de altura e freio de estacionamento convencional. Lembra que falei da redução de custos? Pois bem, o ar-condicionado é manual, a chave tradicional do tipo canivete e até os comandos dos vidros estão no painel e não nas portas. Fora isso, a Renault insiste em manter o comando por satélite, algo já ultrapassado. Em contrapartida, digo: o espaço para porta-objetos é bom, mesmo sendo um carro pequeno! Minha garrafa d’água de 750 ml, por exemplo, ficou certinha no compartimento da porta.
Agora, se a Renault economizou, não foi nos equipamentos de segurança. É um carro de R$ 100 mil, preço mantido pela marca há dois anos, com seis airbags e 11 sistemas de segurança ao motorista (ADAS). Piloto automático, limitador de velocidade, sensores de estacionamento dianteiro e traseiro, alerta e assistente de permanência em faixa, frenagem autônoma de emergência, entre outros, vêm de série no hatch. É um ponto fortíssimo do modelo frente aos rivais. O próprio Dolphin Mini só recebeu esses equipamentos na linha 2026.
Além disso, o Kwid E-Tech mudou bastante. Salvo o Boreal, ouso dizer que é o modelo mais moderno da linha da Renault. Está com um design mais harmonioso e traz faróis de LED, além das lanternas conectadas por uma peça em preto. No entanto, as rodas de 14 polegadas com calota decepcionam, ainda mais se pensarmos que a versão elétrica já teve rodas de liga leve, outro corte de custo.
Por fim, devo registrar algo que percebi e me incomodou. No geral, a carroceria do hatch elétrico tem uma estrutura mais simples e faz uso de aços menos nobres. Você claramente consegue sentir essa simplicidade até mesmo no abrir e fechar da porta, já que tem o peso mais leve.
O Renault Kwid E-Tech no dia a dia
O Renault Kwid E-Tech é equipado com um motor elétrico de 65 cv de potência e 11,5 kgfm, sendo menos potente que o Dolphin Mini em 10 cv. E apesar de ser menos potente que o rival, a dinâmica é boa. O que não significa que ele seja um carro ágil, afinal vai de 0 a 100 km/h em 14,6 segundos e tem velocidade máxima de 130 km/h.
A entrega de torque é imediata, como em qualquer carro elétrico, por isso é esperto para a cidade. E o Kwid tem um perfil 100% urbano. Ou seja, não vai agradar tanto quem busca alta velocidade e desempenho primoroso na estrada, mas sim alguém que queira conforto e agilidade (na medida do possível) para o dia a dia.
Na dinâmica, existe um padrão muito simples com a suspensão traseira por eixo de torção rígido. Então, sempre que você passar por um buraco, vai sentir uma certa pancada. Porém, devo dizer que ainda é melhor que o Dolphin Mini que balança muito, mas tendo alterado um pouco de ajuste de suspensão na linha 2026.
Outro ponto é que, apesar dos freios traseiros a tambor, a frenagem funciona bem no hatch de 965 kg. A direção, vale dizer, é ultra leve. Apesar de macia, atrapalha o fato de ter uma certa instabilidade e uma sensibilidade reduzida também.
Renault Kwid E-Tech - autonomia
Não por menos, precisamos falar de autonomia. O elétrico da Renault é equipado com uma bateria de 26,8 kWh e, segundo o Inmetro, a autonomia declarada é de 180 km. Portanto, é menor que a do Dolphin Mini, que fica em 280 km. Fato é que, a depender da condução, é possível aumentar esse número. Exemplo disso é o modo ECO disponível, que vai ajuda na eficiência da bateria.
Nesse ponto, quero fazer um exercício, já que são poucos os casos que conseguimos comparar o mesmo modelo em versões diferentes. Atualmente, a tarifa média do kWh cobrada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no Brasil é de R$ 0,78. Dessa forma, considerando a capacidade de bateria e fazendo as contas, chegamos ao valor de aproximadamente R$ 20 para uma carga completa. Se considerarmos o preço médio de R$ 2,00 dos eletropostos, seriam cerca de R$ 53.
Isso significa que, para rodar cerca de 1.000 km, o dono precisa recarregar o carro cinco vezes e gastar R$ 100 (ou R$ 265 em eletropostos). No caso de abastecer um Kwid a combustão, considerando a média da gasolina de R$ 6,33 da Petrobras, o tanque de 38 litros e a autonomia de 589 km, se gasta aproximadamente R$ 250,54 para dirigir os mesmos quilômetros. Então, a diferença é bem grande.
Conclusão
É muito claro que a Renault optou por algumas soluções para reduzir os custos do Kwid E-Tech. O modelo é simples, de fato. Mas, embora deixe a desejar em alguns quesitos importantes, é um carro confortável e bem equipado por R$ 100 mil. Um ponto importante é a desvalorização. Um Dolphin Mini 2025 desvaloriza 12,7% em relação a um 0 km, segundo a Fipe. Enquanto um Kwid E-Tech 2025 desvaloriza ainda mais: 15,2%.
A questão aqui é aquela famosa analogia do "carro que serve para cada perfil". Se quer um projeto mais tecnológico, com maior desempenho e espaço, o Kwid não vai se encaixar. Agora, se você busca por um carro confortável para dirigir na cidade e quer economizar, o modelo pode ser uma boa opção, principalmente como um segundo carro, já que a autonomia é bem pequena.
Renault Kwid E-Tech 2026 - Ficha técnica
| Preço: R$ 99.990 |
| Motor: Diant, transv., elétrico, síncrono, imãs permanentes |
| Potência: 65 cv |
| Torque: 11,5 kgfm |
| Câmbio: Automático, 1 marcha, tração dianteira |
| Zero a 100 km/h: 14,6 segundos |
| Bateria: 26,8 kWh (LFP) |
| Autonomia: 185 km (PBEV) |
| Carregamento máx.: 7,4 kW (AC) e 30 kW (DC) |
| Direção: Elétrica |
| Suspensão: Indep., McPherson (diant.) e eixo rígido (tras.) |
| Freios: Discos ventilados (diant.) e tambores (tras.) |
| Pneus: 175/70 R14 |
| Porta-malas: 290 litros (fabricante) |
| Peso: 975 kg |
| DIMENSÕES |
| Comprimento: 3,70 metros |
| Largura: 1,58 m |
| Altura: 1,51 m |
| Entre-eixos: 2,42 m |
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