Teste: BMW Série 3 320i prova que versão de entrada não precisa ser pé de boi
Modelo mais barato da marca no Brasil reúne motor flex, boa lista de equipamentos e desempenho adequado
Por Rodrigo Ribeiro
Não faz muito tempo que os modelos mais baratos das marcas alemãs no Brasil reuniam características incomuns. Tinha Mercedes sem sensor de estacionamento, Audi com retrovisor interno manual e até Série 3 chamado de "Joy", como os Chevrolet de entrada. Felizmente isso mudou, e o BMW 320i é uma feliz prova da nova realidade do luxo "popular".
E haja aspa nisso, porque os R$ 253.950 sugeridos pelo modelo mais barato da marca no Brasil estão longe, muito longe, de serem acessíveis. Por isso mesmo a BMW não economizou em equipamentos no sedã, que desde o pacote inicial tem tudo o que se espera de um carro dessa faixa de preço e mais um pouco — há até estacionamento automático com assistente de saída em ré.
Claro que a diferença entre o 320i GP, o 320i Sport GP (R$ 268.950) e o 320i M Sport (274.950), este último igual ao avaliado por Auto News Brasil, está nos detalhes. O sistema de som, por exemplo, vai melhorando de qualidade (e potência) conforme a etiqueta aumenta, chegando ao Harmann Kardon do modelo mais caro. A chave presencial aparece na intermediária Sport GP, junto com o teto-solar, enquanto só o topo de linha M Sport tem porta-malas com abertura elétrica e controlador de velocidade adaptativo.
Todos têm itens como faróis full-led, ar-condicionado digital de três zonas, bancos de couro com ajuste elétrico na dianteira e multimídia com assistente virtual e opção de concierge (pago à parte). Mas a melhor democracia está no trem de força, que é o mesmo 2.0 16V turboflex de 184 cv com câmbio de oito marchas e tração traseira em todos os modelos.
O conjunto entrega bom vigor no dia a dia, sobretudo em acelerações e retomadas a médias e baixas velocidades. Em nossa pista ele cumpriu o 0 a 100 km/h em adequados 7,9 s, próximo do Audi A4 de 190 cv (7,8 s) e bem distante do Mercedes C180 e seu apagado 1.6 de 156 cv (9,4 s). Mas nesse segmento há algo mais importante do que apenas números: o prazer ao dirigir.
Coelho alemão
Além de roubar parte do slogan da BMW, também vou pegar emprestado o termo usado para atletas que normalmente correm apenas pequenos trechos das maratona. Os coelhos servem para dar ritmo aos outros competidores e até reduzir a resistência do ar ao ficar na frente deles, mas quase nunca têm o fôlego para manter o pique até o final.
O 320i tem comportamento similar. Em saídas de semáforos ou ultrapassagens simples na cidade ele se desvencilha com facilidade do tráfego. Mas esse fôlego diminui sensivelmente quando a velocidade sobe: sair do pedágio ou superar caminhões na estrada são bem menos empolgantes do que se espera de um BMW de (mais de) R$ 250 mil.
Claro que alcançar os 120 km/h de máxima nas rodovias mais rápidas do Brasil ainda é tarefa fácil, mas pode haver alguma frustração para quem espera ter as costas coladas no banco a cada kick-down. Uma alternativa é optar pelo modo de condução Sport, mas a manutenção das marchas baixas e giro elevado o tempo inteiro não compensam tanto a melhora na sensibilidade do acelerador.
Para o dia a dia, porém, o 320i entrega bem mais que o suficiente, desde que sejam feitas as concessões inerentes a boa parte dos BMW. Sim, a suspensão do Série 3 é a mais firme do segmento, e optar pela versão M Sport com molas e amortecedores mais rígidos combinados a rodas de 19" não vai melhorar isso. A contrapartida é a natural agilidade do modelo, que faz ótima dupla com a direção de respostas diretas, freios bem modulados e até pneus assimétricos, com compostos mais largos no eixo traseiro.
E mesmo assim o 320i é incrivelmente civilizado para a realidade brasileira. Apesar da altura livre do solo ser os mesmíssimos 13,6 cm do modelo europeu, o Série 3 nacional supera valetas e lombadas com um vigor surpreendente. Basta um pouco de cuidado e é possível manter o para-choque dianteiro incólume de raspadas na maior parte do tempo.
Outra virtude bem-vinda para as massas é, finalmente, a adoção do Android Auto no sistema multimídia. E, de quebra, a melhoria veio acompanhada da conexão sem fio, algo raro mesmo em modelos premium. Só faltou combinar com os russos (ou melhor, alemães) que projetaram o carregador de celular por indução. Com baixa potência, ele não é capaz sequer de manter a carga do smartphone quando o Android Auto sem fio está em uso.
A chave digital, que permite a abertura do carro pelo celular, porém, segue restrita aos celulares da Apple. Mas ainda é possível destrancar o carro e até rastreá-lo por um aplicativo compatível com celulares Android, além dos recursos integrados à Alexa.
Felizmente o restante da cabine não decepciona, com acabamento impecável (e forrações que variam conforme a versão) e excelente conforto para quatro adultos. O quinto passageiro, como ocorre no segmento, é quase figurativo: túnel central elevado e banco central mais duro deixam claro que ele não é bem-vindo.
E há até um suporte para tirar e prender o cinto de três pontos do meio sobre a cobertura do porta-malas para deixar claro que o objetivo aqui é tratar apenas quem fica nas laterais do banco traseiro.
E o compartimento de bagagens tem uma peculiaridade. Todo Série 3 no Brasil vem equipado com pneus run-flat, capazes de rodar até 80 km/h mesmo depois de furados. Mas o receio de muitos proprietários de ficarem na mão em locais desprovidos de pneus adequados de reposição fez com que a BMW incluísse também um estepe temporário, que ocupa 125 litros do porta-malas e reduz o volume para rasos 365 litros. Não faz muito sentido, já que o pneu de emergência também tem uso restrito e obriga a rápida troca do composto original danificado.
Veredicto
Considerando a alta exigência para essa faixa de preço, o 320i não surpreende, mas cumpre com a tarefa de entregar luxo e desempenho na medida dos concorrentes. É preciso fazer algumas concessões, mas nada que se compare à época em que Série 3 tinha mesmo nome de Meriva. Claro, isso fez com que os alemães ficassem mais inacessíveis, mas essa é a nova realidade do mercado — que a BMW soube ler como ninguém.
Desempenho
| ACELERAÇÃO | |
| 0 a 40 km/h | 1,9 s |
| 0 a 80 km/h | 5,5 s |
| 0 a 100 km/h | 7,9 s |
| 0 a 120 km/h | 10,8 s |
| 0 a 400 metros | 15,6 s |
| 0 a 1.000 metros | 28,3 s |
| Vel. em 1.000 metros | 189,8 km/h |
| Vel. real a 100 km/h | 96 km/h |
| RETOMADA | |
| 40 a 80 km/h (Drive) | 3,4 s |
| 60 a 100 km/h (D) | 4,3 s |
| 80 a 120 km/h (D) | 5,0 s |
| FRENAGEM | |
| 100 km/h a 0 | 38,5 metros |
| 80 km/h a 0 | 24,7 metros |
| 60 km/h a 0 | 14,1 metros |
| CONSUMO (Gasolina) | |
| Urbano | 11,2 km/l |
| Rodoviário | 18,5 km/l |
| Autonomia em estrada | 1.091 km |
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Ficha técnica
| Motor | Dianteiro, longitudinal, 2.0 16V, turbo, injeção direta, flex |
| Potência | 184 cv entre 5.000 e 6.500 rpm |
| Torque | 30,6 kgfm entre 1.350 e 4.000 rpm |
| Câmbio | Automático, oito marchas |
| Tração | Traseira |
| Direção | Elétrica, 11,4 m (diâmetro de giro) |
| Suspensão | Independente, McPherson (dianteira) e multibraço (traseira) |
| Freios | A disco ventilado |
| Pneus e rodas | 225/45 R18 (GP e Sport GP) e 225/40 R19/255/35 R19 (D/T) no M Sport |
| Comprimento | 4,71 metros |
| Largura (s/retrovisores) | 1,83 m |
| Altura | 1,43 m |
| Entre-eixos | 2,85 m |
| Tanque | 59 litros |
| Porta-malas | 365 litros |
| Peso | 1.460 kg |
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