Seu carro já pode ser hackeado, mas não como você imagina
Ainda que os veículos autônomos não sejam realidade no mundo, ataques hackers já conseguem controlá-los remotamente e até roubá-los
Por Emily Nery
A era da internet das coisas (IoT), em que todos os aparelhos — do celular a geladeira — são conectados, já é real, e os carros modernos fazem parte desse ecossistema.
Porém, tal exposição pode trazer malefícios, como possíveis acessos indevidos ao sistema veicular, ação que já é possível atualmente. O controle 100% remoto do automóvel ainda é uma realidade distante do Brasil. Mas isso não significa que não devemos nos preocupar. Até os modelos desprovidos de conectividade estão vulneráveis a ataques no sistema.
“Quanto mais conectado o carro for, maior o universo de ameaças que ele terá”, afirma Leandro Augusto, sócio e líder de cibersegurança da consultoria KPMG. “Isso varia conforme o nível de conectividade dos veículos e as formas de acesso a ele, como por Bluetooth, Wi-Fi ou radiofrequência”, explica o especialista.
Em nosso mercado, alguns veículos possibilitam o comando de determinadas funções pelo celular, como dar partida no motor, acionar os faróis, ligar o ar-condicionado e travar ou destravar as portas.
Paralelamente, adicionam-se funções semiautônomas — estacionamento automático, assistente de manutenção ou mudança de faixa, piloto automático, entre outras. Dependendo da segurança provida pela montadora, alguns desses serviços tornam-se mais vulneráveis a invasões de software.
São utilizados dois sistemas diferentes. Um controla a central multimídia e o outro comanda os controles mecânicos do veículo, como acelerar, frear e fazer curvas. Este fica em uma camada bem mais profunda do sistema, portanto é muito mais difícil de ser acessado.
“Por esse ser um produto dinâmico e que precisa oferecer segurança aos seus usuários, as plataformas de conectividade dos carros são fechadas e são diferentes de sistemas operacionais de um computador comum, por exemplo”, ressalta Henrique Miranda, Head de conectividade da BMW.
Esse, segundo o executivo, é um dos motivos pelos quais as montadoras permitem apenas o uso de alguns aplicativos nas centrais multimídia.
Lá fora
A boa notícia é que o roubo de carros por invasões hackers ainda não chegou ao Brasil. No Reino Unido, entretanto, esse tipo de crime virou “febre”. Bandidos usam um transmissor para hackear o sinal da chave presencial dentro da residência. Assim, conseguem destravar e ligar o veículo em questão de segundos.
Graças ao endereço IP do carro, pesquisadores dos EUA já conseguiram controlar remotamente itens como o ar-condicionado, o volume do rádio e até o freio do veículo, deixando o motorista temporariamente sem controle.
Em outros casos, hackers conseguiram entrar remotamente no servidor da Tesla e ter acesso às informações de todos os veículos da marca no mundo. A montadora, inclusive, promove eventos para desafiar hackers a encontrar vulnerabilidades no sistema veicular.
Atualizações OTA
Cada vez mais comuns nos novos carros, os sistemas multimídia podem ser atualizados “Over the Air” (OTA), conforme anunciam as montadoras. Isso significa que não é necessário levar o veículo à concessionária cada vez que o sistema precisar de atualizações. De acordo com Leandro, essa é uma forma rápida e efetiva de viabilizar segurança para a central de infotainment e correção de possíveis erros.
Softwares antigos ficarão mais vulneráveis?
Na medida em que os sistemas operacionais de computadores e celulares ficam antigos, as fabricantes deixam de oferecer suporte ao eletrônico, o que nos força a trocar periodicamente os aparelhos eletrônicos por versões novas. Uma situação parecida pode acontecer com o veículo, segundo Leandro. Só que, nesse caso, estamos falando de uma máquina muito mais cara.
O executivo da BMW ressalta que as novas tecnologias não estarão presentes em todos os veículos, mesmo aqueles que já são conectados. Caso o fabricante identifique que os novos recursos de assistência ou conectividade podem abrir brechas na segurança do software de sistemas mais antigos, ela não irá disponibilizá-los aos proprietários cujos carros usufruam desses sistemas operacionais. É o que acontece, por exemplo, com a chave digital da marca, que não está disponível para modelos antigos.
Antivírus veicular
Para o líder de cibersegurança, as pessoas levarão em consideração a privacidade e segurança de dispositivos integrados à internet das coisas (IoT), como é o caso de carros conectados. Com isso, a procura por antivírus e proteções extras para os veículos poderá aumentar.
Não é necessário nem acessar a internet
A maioria dos carros possui uma porta chamada OBDII, usada normalmente para diagnósticos e eventuais reparos no sistema eletrônico. Para acessá-la não é preciso internet, somente a conexão direta. Ou seja, basta o hacker ter contato físico com o carro para acessar e até controlar uma série de informações.
Qual é o segredo?
A indústria chegou a um patamar de conectividade do qual não há mais como retroceder. Embora essas informações pareçam alarmantes, montadoras e empresas de cibersegurança trabalham em conjunto para sanar rapidamente possíveis brechas no software e garantir a segurança dos motoristas.
Leandro Augusto alerta o consumidor a respeito da necessidade de verificar qual é o suporte oferecido pela fabricante, qual é a periodicidade das atualizações do software e como é feita essa melhoria.
Embora possa ser mais caro, é importante também utilizar equipamentos de conectividade e assistência ao motorista vindos de fábrica. É uma forma de assegurar que a proteção do dispositivo está em consonância com a segurança do veículo.
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