Teste: Nissan Kait consegue ser mais do que um Kicks Play repaginado?
SUV de entrada é uma reestilização profunda do Kicks Play e terá uma missão extremamente importante para a Nissan na América do Sul
O novo Nissan Kait tenta se desprender do Kicks Play para parecer um carro novo, mas basta pouco tempo com o SUV para chegar à conclusão (sem muita surpresa) que é uma reestilização do seu antecessor: são irmãos de corpo e alma. Mas será que o que oferece de novo é suficiente para manter um bom volume de vendas e incomodar Volkswagen Tera, Fiat Pulse e Renault Kardian? Auto News Brasil testou a versão Advance Plus, de R$ 149.890, para responder.
O Kait nasceu para ser um carro de baixo custo e, ao mesmo tempo, uma versão mais moderna da primeira geração do Kicks. Posteriormente, este receberia o sobrenome Play para conviver com a segunda geração, lançada em junho do ano passado. Por isso, a fabricante japonesa foi econômica e investiu o mínimo necessário para atualizar um projeto antigo.
Vale lembrar, a empresa enfrenta uma crise global, passando por queda de CEO, mais de 20 mil demissões e o fechamento de sete fábricas. E o Kait é uma grande aposta para os próximos anos. A fábrica de Resende (RJ) recebeu um investimento de R$ 2,8 bilhões para atualizar o sucessor do Kicks Play. O Brasil foi o primeiro mercado a receber o Kait, mas o modelo será exportado para 20 países das Américas, especialmente para México e Argentina.
Nissan Kait 2026
| Versão | Preço |
| Nissan Kait Active 2026 | R$ 117.990 |
| Nissan Kait Sense Plus 2026 | R$ 139.590 |
| Nissan Kait Advance Plus 2026 | R$ 149.890 |
| Nissan Kait Exclusive 2026 | R$ 152.990 |
O "esqueleto" do Kait é a plataforma V — mesma da primeira geração do Kicks — que chegou ao Brasil em 2011 com o March. Sendo assim, tem basicamente o mesmo corpo, herdando elementos da carroceria, como as colunas A e B, portas laterais, para-lamas, vidros e teto. Se há uma herança positiva nessa história é que o "novato" tem as mesmas dimensões do antecessor.
São 4,30 metros de comprimento, 1,76 m de largura, 1,59 m de altura e 2,62 m de entre-eixos. O Kicks Play é apenas 1 cm maior no comprimento por questões de design do para-choque. Os porta-malas de ambos ostentam os mesmos 432 litros de capacidade — que é um ótimo número para o segmento.
Outra herança — e aqui, o a denominação positiva ou negativa é discutível — é já conhecido motor 1.6 aspirado flex de quatro cilindros e 16 válvulas, preparado para o Proconve L8. São 110 cv e 14,9 kgfm com gasolina e 113 cv e 15,5 kgfm com etanol, sempre com um câmbio automático CVT (continuamente variável) de seis marchas simuladas. Lembra que falei que o carro é de baixo custo? A Nissan economizou até na tinta da parte de dentro do capô!
Minha vizinha de vaga no condomínio tem um Kicks de primeira geração. Quem vê os carros lado a lado, chapados de frente ou de traseira, pode até achar que são modelos totalmente diferentes, Elementos como capô, para-choques, faróis, rodas, tampa do porta-malas e lanternas traseiras são inéditos. E ai vai um elogio para a Nissan, que, dentro das limitações do projeto, conseguiu deixar o Kait com um design diferente do Kicks Play, com direito a faróis e lanternas de LED em todas as versões.
Mas basta entrar no Kait que a alma do Kicks Play vem junto — para o bem e para o mal. No banco traseiro, uma pessoa de 1,87 m, como é o meu caso, tem espaço confortável para as pernas e cabeça, assim como era na primeira geração do Kicks. Por outro lado, pensando em três adultos sentados ali, o espaço lateral para os ombros já é mais apertado. Como comodidade, tem apoio central com dois porta-copos, duas entradas USB-C e portas com apoio de braço macio, entretanto, não há saídas de ar-condicionado.
No quesito espaço, o SUV é melhor em relação aos seus concorrentes. Basta comparar seus 2,63 m de distância entre-eixos com Pulse (2,53 m), Tera (2,57 m) e Kardian (2,60). Apesar do projeto ser antigo, o Kait tem muito mais porte do SUV do que o trio.
No banco da frente tudo é muito similar ao do veterano. A Nissan se esforçou e usou alguns truques para diferenciar as cabines: as saídas de ar retangulares deram lugar a difusores arredondados. As duas versões de entrada têm a central multimídia com tela de 8 polegadas, enquanto as duas mais caras a tela é uma polegada maior — em todos os casos, a conexão de Apple CarPlay e Android Auto e sem fio.
A conexão do CarPlay com a multimídia é feita de forma muita rápida e prática. Porém, a interface e todo o sistema são bem ultrapassados. Os comandos, os barulhos e as funcionalidades nos fazem remeter às telas que começaram a surgir na década passada. A qualidade como um todo é bem ruim, incluindo da câmera de ré.
Já o quadro de instrumentos agora tem duas telas digitais. À esquerda, uma colorida, de 7 polegadas na vertical, que oferece diversas informações, de acordo com a demanda do condutor. À direita, em vez de um mostrador analógico como antes, há uma segunda tela, de cristal líquido com fonte branca.
De série, o SUV já vem com seis airbags, chave presencial com partida por botão, ar-condicionado manual, bancos com revestimento de tecido, câmera de ré, sensor de estacionamento traseiro, faróis e lanternas de LED e rodas de 17 polegadas.
Mas é na hora de dirigir que o Kait mostra que é um irmão gêmeo do Kicks Play. O SUV herdou a mesma dinâmica e o motor 1.6 aspirado, que "grita" alto em muitos momentos.
Em baixas velocidades na cidade o motor não chega a ser silencioso, mas também não incomoda. Só que basta acelerar e as rotações "vão lá em cima", com o câmbio CVT tentando entregar o torque o mais rápido possível. Este só atinge seu ápice de 14,9 kgfm com gasolina a 4.000 rpm. A reação dessa ação é um ruído alto na cabine, o que incomoda bastante.
Este comportamento não é apenas uma consequência do câmbio continuamente variável, mas também de seu propulsor aspirado, que precisa girar bastante para desenvolver potência e torque. Um motor turbo deixaria o Kait mais ágil — e caro. Lembremos sempre da proposta de "baixo custo".
O esforço do motor é grande para o SUV de 1.157 kg ganhar fôlego. E olha que nem é dos mais pesados para o porte do carro. Não há a elasticidade dos rivais turbinados e, sem dúvidas, o Kait merecia mais de potência e torque. Quem pensou na possibilidade de adotar o motor 1.0 turbo de até 125 cv e 22,4 kgfm de torque (que equipa Kicks e Kardian) pode rever suas expectativas: isso elevaria muito o custo do Kicks Play.
Em nossa pista de testes, no Campo de Provas Rota 127, em Tatuí (SP), a marca de 0 a 100 km/h foi feita em 11,5 segundos, o que representa um número dentro do esperado pelo o que o SUV entrega. Na estrada, principalmente, o motor será ainda mais barulhento durante ultrapassagens. Retomadas de velocidade também passam longe de ser um mérito.
De 40 km/h para 80 km/h são necessários 5,1 segundos, enquanto de 60 a 100 km/h são 6,6 s e de 80 a 120 km/h são longos 8,3 s — com o ponteiro do conta-giros batendo os 5.500 rpm. As fichas dos três rivais mostram números bem mais satisfatórios do que esses.
A Nissan nunca prometeu desempenho empolgante, pois sabe das limitações desse motor. Seu maior apelo sempre foi a eficiência, e isso foi comprovado em nosso teste: o Kait fez 11,9 km/l na cidade e 13,7 km/l na estrada, sempre com o ar-condicionado ligado e gasolina no tanque. O Tera, por exemplo, tem números inferiores na cidade, mas leva a melhor na estrada: 11,5 km/l e 17,3 km/l, respectivamente.
Quanto ao sistema de freios, o Kait é equipado com discos ventilados nas rodas dianteira e tambores nas traseiras — novamente, para manter uma economia no projeto. E, neste quesito, como foi sua performance no teste em pista da Auto News Brasil?
Vindo de 100 km/h até frear completamente, o Kait percorreu 29,2 m. E, vindo dos 60 0 km/h, o SUV precisou de apenas 13,9 m até parar. São números muito bons para um carro desse porte com freios a tambores na traseira: fica pouquíssimo abaixo de Tera e Kardian, ambos com freios a disco nas quatro rodas, e, se comparado com o Pulse, que também tem tambores, o Kait leva a melhor em todos os números, com uma vantagem na média de 2 m a menos.
Vale a pena comprar o Kait?
Na parte de segurança, a versão Advance Plus tem alerta e assistente de frenagem e detecção de pedestre, além de assistente de permanência em faixa. Porém, por R$ 3 mil a mais, você poderá adquirir a versão Exclusive, que acrescenta ar-condicionado digital, banco com revestimento exclusivo, câmera com visão 360º, monitoramento da pressão dos pneus, alerta de ponto cego, frenagem autônoma de emergência e controle de cruzeiro adaptativo (ACC).
Então, sendo este um valor tão pequeno para investir e receber um "upgrade", a versão Advance Plus que testamos deixa de fazer sentido em sua gama.
Na parte de custo-benefício, o Kait se destaca ao oferecer as três primeiras revisões, em três anos ou 30.000 km, saindo por R$ 2.712 totais. Na cotação de seguro, feita por nossos parceiros da Creditas Seguros, os valores médios ficaram em R$ 2.709 para homens e R$ 3.647 para mulheres.
O Nissan Kait é só um Kicks Play disfarçado para brigar com Tera, Pulse e Kardian? Sim, isso não tem como negar. Foi o jeito que a Nissan encontrou para modernizar um projeto antigo.
O SUV japonês preserva as qualidades do antecessor, como espaço e economia de combustível. Ainda traz um design mais atraente. No entanto, também herda as partes negativas, como o motor fraco e a central multimídia que deixa a desejar. Embora seja menos moderno do que os rivais, certamente tem público e vai continuar vendendo bastante, como o Kicks Play nos últimos anos. Essa pode ser a salvação da Nissan na América do Sul.
Nissan Kait Advance Plus
| ACELERAÇÃO |
| 0 - 40 km/h: 3,2s |
| 0 - 80 km/h: 7,9 s |
| 0 - 100 km/h: 11,5 s |
| 0 - 120 km/h: 16,4 s |
| 0 - 400 m: 18,1 s |
| 0 - 1.000 m: 33,4 s |
| Veloc. a 1.000 m: 152,8 km/h |
| Vel. real a 100 km/h: 98 km/h |
| RETOMADA |
| 40 - 80 km/h (Drive): 5,1 s |
| 60 - 100 km/h (D): 6,6 s |
| 80 - 120 km/h (D): 8,3 s |
| FRENAGEM |
| 100 - 0 km/h: 39,2 m |
| 80 - 0 km/h: 24,5 m |
| 60 - 0 km/h: 13,9 m |
Nissan Kait Advance Plus
| Preço: R$ 149.890 |
| Motor: Dianteiro, transversal, 4 cil. em linha, 1.6, 16V, flex |
| Potência: 110 cv a 5.600 rpm |
| Torque: 14.0 kgfm a 4.000 rpm |
| Câmbio: Automático, CVT, tração dianteira |
| Direção: Elétrica |
| Suspensão: Indep. McPherson (diant.) e eixo de torção (tras.) |
| Freios: Discos ventilados (diant.) e tambores (tras.) |
| Pneus 205/55 R17 |
| Tanque: 40 litros |
| Porta-malas: 432 litros (fabricante) |
| Peso: 1.157kg |
| DIMENSÕES |
| Comprimento: 4,31 metros |
| Largura: 1,76 m |
| Altura: 1,59 m |
| Entre-eixos: 2,61 m |
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