Como Gurgel e Romi tentaram realizar sonho do carro popular nacional
Dois pioneiros tentaram fazer um veículo brasileiro, mas não conseguiram; relembre suas histórias
A morte de Romeo Romi, aos 97 anos, no fim de agosto, passou quase despercebida. Um dos últimos grandes industriais do Brasil, Romeo foi o sucessor do pai, Americo, no comando das Indústrias Romi, criadas em 1930 em Santa Bárbara do Oeste (SP).
A Romi foi a primeira empresa nacional a lançar um automóvel fabricado em série no país, o Romi-Isetta. Era o mesmo sonho de outro grande industrial, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, da Gurgel Motores, falecido aos 83 anos em janeiro de 2009: construir um carro acessível com tecnologia 100% brasileira. Ambas as iniciativas não se concretizaram.
O Romi-Isetta não era propriamente um automóvel, e sim um microcarro. Lançado originalmente na Itália em abril de 1953 pelo fabricante de motocicletas Iso Automotoveicoli, era uma alternativa para a mobilidade em um país em reconstrução pós-guerra.
Projetado pelo engenheiro aeronáutico Ermenegildo Preti e pelo designer Pierluigi Raggi, o Isetta tinha soluções avançadas para a época: carroceria aerodinâmica em forma de bolha, uma única porta frontal. Pesava 350 kg e, com motor monocilindro de dois tempos derivado de motocicleta, de 198 cm3 e cerca de 10 cv, e câmbio de quatro marchas, fazia até 25 km/l.
A Romi já era um bem-sucedido fabricante de implementos agrícolas e tornos mecânicos, mas se interessou pelo projeto e, em 1955, conseguiu licença para a fabricação. As primeiras unidades saíram da linha em 30 de junho de 1956 com 72% de nacionalização — apenas o conjunto mecânico era importado. Naquele período, o governo de Juscelino Kubitschek criava o Grupo Executivo da Indústria Automobilística, o Geia, iniciativa para fomentar a indústria automotiva no país.
Presidido por um militar, o almirante Lúcio Meira, o Geia definiu como automóvel os veículos de quatro rodas com capacidade mínima para quatro passageiros e máxima para sete. O Romi-Isetta tinha quatro rodas (as traseiras com bitola de 52 cm), mas era um 2+1 (dois adultos e uma criança).
Com isso, abriram-se as portas para os fabricantes estrangeiros. Sem os incentivos fiscais, o carro, previsto para custar R$ 38 mil em valores corrigidos, passou a ser vendido pelo dobro do preço. Ainda assim, foram comercializadas 3.150 unidades até 1961, quando a produção foi encerrada.
A mesma falta de visão do governo atingiu o empresário João Gurgel. Engenheiro, como Romeo Romi, já era reconhecido pelos veículos que fabricava em Rio Claro (SP), sede da Gurgel Motores. Mas Gurgel aspirava lançar um carro de baixo custo, ao alcance de qualquer brasileiro.
Esse carro era o Delta e, dado o grande volume previsto, seria produzido em várias fábricas espalhadas pelo Brasil, a primeira delas no Ceará. Gurgel conseguiu financiamento dos governos de São Paulo e do Ceará, investiu em equipamentos e, quando iria começar a construção da fábrica cearense, o governo criou o programa de carro popular que reduziu impostos para veículos com motor 1.0.
Sem poder concorrer com carros maiores e mais baratos, a Gurgel pediu concordata em 1993, ano previsto para o lançamento do Delta. A Gurgel Motores faliu. As Indústrias Romi seguem firme, com 13 unidades fabris, duas delas na Alemanha.
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