Carregando noticias automotivas

Preparando conteudo do Auto News Brasil...

Carros clássicos
Por
Marcos Rozen

O primeiro teste automotivo feito no Brasil — ou seja, quando um veículo de comunicação mediu índices como consumo, aceleração e velocidade máxima — foi publicado na edição de 5 de dezembro de 1959 do jornal O 3PWEB, que acaba de completar 100 anos. A façanha foi da coluna Automóveis e Aviões, do então jornalista e depois publicitário Mauro Salles.

Publicidade

A escolha do modelo foi quase óbvia: a Rural Willys 1960, que não só acabava de ganhar desenho renovado, exclusivamente nacional, como era o veículo com maior índice de peças brasileiras em produção.

Rural Willys 1960 foi protagonista do primeiro teste de veículos no Brasil — Foto: Divulgação/Acervo MIAU
Rural Willys 1960 foi protagonista do primeiro teste de veículos no Brasil — Foto: Divulgação/Acervo MIAU
Continua depois da publicidade

Revisitar esse material é deliciar-se com uma mistura de ingenuidade e genialidade, e ter a certeza de que os pioneiros podiam até não saber exatamente o que estavam fazendo, mas sabiam que era preciso, de alguma forma, fazê-lo. Cabe recordar dificuldades.

Publicidade

A primeira era o espaço disponível: apenas meia página, onde Salles milagrosamente encaixou texto, fotos, resultados dos testes e ficha técnica. A seguinte era a inexistência do hábito de fabricantes cederem veículos para testes. Determinado, o escriba conseguiu uma unidade emprestada pela concessionária Gastal.

Publicidade

O texto publicado está mais para crônica do que reportagem, o que torna a leitura ainda mais saborosa. Para quem esperava bajulação, Salles não poupou a Rural de críticas. “O banco é duro e incômodo, como se tivesse sido projetado para carregar passageiros de 180 quilos ou sacos de cimento.”

O relato das características de uso é quase impagável. “A Rural Willys não é veloz, nem foi feita para isso. Mas, embora não se dê bem em um autódromo, não é de bancar a tartaruga na estrada.” E quanto à velocidade máxima? “Nos testes conseguimos levar o ponteiro do velocímetro até 120 km/h, o que satisfará a um ‘playboy’ menos exigente, cujo pai não tenha ainda a coragem de presenteá-lo com um MG [carro esporte inglês].”

Na época, não havia medição de zero a 100 km/h; a Rural levou quase 40 segundos para chegar a 120 km/h — Foto: Divulgação/Acervo MIAU
Na época, não havia medição de zero a 100 km/h; a Rural levou quase 40 segundos para chegar a 120 km/h — Foto: Divulgação/Acervo MIAU

Salles, porém, alertava que “o ponteiro não corresponde à realidade, pois prevendo que os motoristas sempre se aventuram a ultrapassar as velocidades permitidas, os fabricantes ajustam os velocímetros para que deem leitura um pouco acima da real”. A equipe calculou margem de erro de até 11%.

No quesito aceleração, o deleite jornalístico prossegue. “Parado no sinal um motorista hábil, sabendo encaixar na hora uma segunda [o câmbio não era sincronizado], dificilmente fará papel feio na vaidosa disputa de uma arrancada. Mas a Rural não sairá com os pneus assobiando e riscando o asfalto como uma máquina de chamar atenção.” O zero a 100 km/h não era o padrão, então foram calculadas acelerações até 80 km/h e 120 km/h: 22,5 segundos e 39 s, respectivamente.

Velocímetro indicava velocidade acima da real, constatou o teste — Foto: Divulgação/Acervo MIAU
Velocímetro indicava velocidade acima da real, constatou o teste — Foto: Divulgação/Acervo MIAU

Na análise do design, veio a tacada definitiva. “Depois de todas as provas, quando a bonita grade da Rural 60 estava quase irreconhecível com tanta lama e areia, foi bastante um banho de mangueira de jardim para colocá-la em condições de participar de qualquer desfile de elegância em Copacabana.”

Por absoluta falta de espaço, poucas fotos foram publicadas naquela edição. Mas isso foi compensado meses depois, quando Salles reescreveu o teste para a edição de setembro de 1960 da revista Mecânica Popular (que, anos mais tarde, seria incorporada a Auto News Brasil). Ele acrescentou: “O fato de o motor trabalhar sempre em temperatura acima da média não deve ser motivo de espanto: é disso que ele gosta. Não conseguimos fazê-lo ferver, apesar de termos sinceramente tentado...”.

Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da Auto News Brasil? É só clicar aqui para acessar a revista digital.

Publicidade
Mais recente Próxima Chevrolet Omega CD 1994 restaurado pela marca é leiloado por R$ 437 mil
Mais do autoesporte