Teste rápido: Kia EV6 é o carro do futuro no presente
Crossover elétrico chega no segundo semestre e vai elevar o nível do segmento com tecnologia, visual e mais de 500 km de autonomia
Por André Paixão
Uns 15 anos atrás, se alguém perguntasse como seria o carro do futuro, o imaginário popular poderia criar um modelo com desenho elegante, esportivo e sofisticado, diversos equipamentos de auxílio ao motorista, telas grandes e muito espaço interno. Mas principalmente que não dependesse de postos de gasolina, não emitisse poluentes e tivesse baterias capazes de suportar até viagens de médio alcance.
Kia EV6: 20 fotos do primeiro carro elétrico da marca no Brasil
Kia EV6 — Foto: Murilo Góes/Auto News Brasil
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Kia EV6 — Foto: Murilo Góes/Auto News Brasil
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Neste ano, podemos dizer que esse carro do futuro chegou e atende pelo nome de Kia EV6, eleito recentemente o Carro do Ano na Europa.
Auto News Brasil praticamente foi até o futuro e avaliou o modelo antes mesmo do lançamento no Brasil, previsto para o segundo semestre – até por isso, o preço ainda não foi definido. Porém, estimamos que ele vá ocupar a faixa dos R$ 350 mil, concorrendo acima dos hatches compactos e médios e logo abaixo do Volvo XC40.
Virando pescoços
Mas isso é assunto para daqui a pouco. Antes, quero convidá-lo a olhar bem para o carro cinza das fotos. Tome o tempo que quiser. Agora me diga: qual foi a última vez que você viu algo tão chamativo (no bom sentido da expressão)?
O EV6 é um daqueles carros que fazem você virar o pescoço quando os vê na rua. E olha que isso não acontecia com um Kia há uns bons anos, apesar dos sucessivos bons trabalhos do departamento de design dos sul-coreanos.
O design do EV6 é diferente de tudo que roda atualmente no Brasil. E isso é proposital. Ele inaugura a linguagem Opposites United. Segundo a marca, a inspiração são os contrastes encontrados na natureza e na humanidade.
O resultado é um carro moderno, porém sem parecer ter sido criado para Os Jetsons. É sofisticado sem parecer esnobe. Os cromados são praticamente inexistentes. O que não é fosco tem acabamento de plástico preto brilhante. Em relação à forma, é difícil enquadrar o Kia: altura de hatch médio, comprimento de sedã médio e entre-eixos de SUV grande, mas jeitão de crossover.
Não faltam ângulos arrojados, apesar de a carroceria ser praticamente livre de vincos. Os faróis são afilados, a linha de cintura é ascendente e a lanterna aproveita a forma do spoiler na tampa do porta-malas para abrigar parte do sistema de iluminação.
As luzes direcionais completam uma espécie de arco. Sem dúvidas, a traseira é a parte mais atraente desse Kia. Falo isso com uma dose de empolgação, mas não estou sozinho. O EV6 levou o Good Design Awards de 2021 e é frequentemente citado como referência do tipo.
"É um Tesla?"
Não vou seguir nas comparações entre Tesla e Kia porque minha única experiência a bordo do primeiro foi no banco de trás e por menos de uma hora. Assim, vamos continuar a falar do EV6. Ele não é o primeiro elétrico da Kia, mas é o pioneiro a ser construído sobre a plataforma E-GMP, própria para carros desse tipo.
Uma das vantagens é o excelente aproveitamento de espaço. Com seus 4,69 metros, ele é apenas 6 centímetros mais comprido que um Toyota Corolla. Só que o entre-eixos é de carro grande. São 2,90 m, 20 cm extras na comparação com o Toyota e 11 cm a mais do que um Jeep Commander.
Mesmo pessoas de 1,90 m ficarão confortáveis. Com meus 1,73 m, pude cruzar as pernas sem maiores problemas. Outro benefício é o assoalho plano, sem a protuberância típica de modelos a combustão.
Também sobra espaço para as bagagens. No porta-malas vão 520 litros e outros 52 l podem ser acomodados em uma caixa plástica instalada no lugar onde estaria o motor a combustão na dianteira. Essa área está livre porque o motor elétrico fica na traseira, impulsionando também as rodas de trás. A configuração escolhida para o Brasil, GT-Line, é a intermediária em outros mercados.
Tecnologia de Porsche
São 229 cv e 35,7 kgfm de torque e um pacote de baterias de 77 kWh. Na Europa, ainda estão disponíveis combinações de motores nos dois eixos, 585 cv e um kit menor de baterias, com 58 kWh.
A opção escolhida para o Brasil garante ao EV6 autonomia combinada de 528 km no ciclo WLTP. A Kia diz que o modelo ainda está sendo homologado, mas o alcance deve ficar entre 450 km e 500 km – o que o colocará entre os melhores nesse quesito.
A velocidade de carregamento também promete surpreender. O Kia EV6 possui a mesma tecnologia de Porsche Taycan e Audi RS e-tron GT, com baterias de 800 volts que permitem recargas ultrarrápidas em aparelhos de até 350 kW.
Nessa condição específica, subir de 10% para 80% de carga leva apenas 18 minutos. Entretanto, aparelhos desse tipo ainda são raríssimos no Brasil e existe a limitação na velocidade de recarga dos próprios carros, normalmente de 270 kW.
De todo modo, é difícil passar aperto com o EV6 no uso cotidiano. A projeção da autonomia no computador de bordo é bastante realista. Ainda é possível escolher três modos de condução, Normal, Eco e Sport, com diferenças bastante perceptíveis no comportamento, mas nem tanto na autonomia – que variou cerca de 20 km entre o mais econômico e o mais gastão.
A recuperação de energia cinética pode ser ajustada em três níveis e também em um modo automático, regulado pelo próprio veículo.
Contradição
Ao volante, o EV6 apresenta sua maior contradição. Essa versão não tem a esportividade sugerida pelo desenho exterior. Óbvio que a marca de 7,1 segundos para ir de zero a 100 km/h é respeitável, mas a condução está mais para um sedã de luxo do que para um carro esportivo – mesmo no modo mais apimentado.
Mas isso realmente fica de lado diante das outras qualidades do EV6. É óbvio que o silêncio é mais perceptível que em modelos a combustão. Mas é preciso ressaltar que, mesmo assim, a rodagem é muito suave - mérito dos pneus Nexen N Fera Sport - especiais para modelos elétricos.
Sua direção é bastante precisa e tem o peso certo para cada ocasião. A suspensão, de arquitetura traseira multilink, filtra bem as imperfeições do solo, apesar de transmitir um pouco demais as oscilações de pisos menos conservados.
Fico curioso para saber como se sai a versão mais potente, já que todo o conjunto parece pronto para acelerar mais e fazer curvas mais rápidas.
O arsenal de auxílios ao motorista é extenso: controlador de velocidade adaptativo, alerta de saída de faixa com correção do volante, frenagem automática de emergência, câmeras 360 graus e head-up display são apenas os principais itens.
Belo por fora, prático por dentro
O EV6 está repleto de boas sacadas – visuais e funcionais. São exemplos as entradas USB na lateral dos bancos dianteiros, o vão abaixo do console central para acomodar bolsas e sacolas, o sistema de rebatimento dos bancos (que lembram até poltronas de classe executiva de avião) e os menus de climatização e sistema de som, que ocupam a mesma barra no console central, mas se alternam por meio de uma tecla na superfície tátil.
O acabamento não chega a ser equivalente ao de modelos de luxo, mas fica acima dos concorrentes usuais de um Kia. A cabine tem visual moderno, com destaque para as duas telas de 12,3 polegadas cada. Um easter-egg está no pedal de freio, com uma espécie de grade formando as letras EV.
Do lado de fora, o bocal de carregamento está localizado rente à lanterna direita e as maçanetas ficam escondidas na carroceria quando o carro está travado ou em movimento. Se você precisa estacionar em uma vaga de 90 graus mais apertada, não há problema.
O EV6 tem um sistema de estacionamento remoto que pode ser controlado pela chave. Basta sair do carro que ele pode avançar ou recuar de forma autônoma com o toque de um botão.
Mesmo após ser lançado, no segundo semestre, não será tarefa fácil encontrar um Kia EV6 nas ruas brasileiras. O preço elevado (como de todo elétrico) e a pequena quantidade de unidades disponíveis para o Brasil devem fazer do crossover sul-coreano um coadjuvante, mesmo dentro do pequeno nicho de modelos movidos a bateria. Mas ele certamente será uma das referências da categoria.
É uma prova de que o futuro é hoje.
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