Teste de 1982: Ford Belina impressionou ao fazer até 14 km/l com etanol
“Perua” da Ford ainda trazia itens extremamente luxuosos para a época, como ar-condicionado; veja os detalhes
Por Por Sérgio Duarte, com transcrição e adaptação de Marcos Rozen
Quando ainda mantinha suas linhas anteriores, da primeira geração, a Belina contava com uma versão enfeitada com imitação de madeira nas laterais, bem do tipo Station Wagon americana, tentando conquistar – ou mesmo criar – um mercado próprio para as peruas familiares no Brasil.
Hoje as coisas estão bem mudadas, e a Belina II mais ainda. Não só entrou no mercado como foi tão bem-sucedida que agora o influencia. Uma das razões para isso é que a Ford soube usar de grande coerência no processo de adequação do modelo ao mercado, adiantando-se em requintes necessários e usando de equilíbrio nos demais quesitos.
A Belina II tornou-se um dos veículos mais procurados e, o que é muito importante, mais valorizados no mercado de carros usados. Penetrou com muita homogeneidade em capitais e regiões interioranas, tudo resultado da confiabilidade que foi angariando ao longo dos anos.
Para que se possa fazer uma avaliação correta de qualquer veículo, temos que considerá-lo em função de seu uso, sob pena de dar nota zero ao banco traseiro de um Ferrari Mondial 8 ou a mesma nota zero à aceleração de uma Kombi diesel. Como a Belina evidencia seus propósitos familiares como veículo versátil e econômico, sem pretender recordes em aceleração ou estilo, tamanho ou preço, consideramos as notas dadas (ao final da reportagem) tendo como referencial uma família e o que ela pode exigir de um carro.
Economia absurda
Quando fizemos as medições de consumo a velocidades constantes de estrada, tomamos como errado o resultado obtido na primeira medição, a 80 km/h. Refizemos a prova e passamos, em virtude dos números alcançados, a prestar o dobro de atenção. E, a cada nova medição, mais uma confirmação.
Em todas as medições passamos dos 14 km/l, graças ao uso da quinta marcha, chegando, em seis medições, à excelente média de 14,3 km com apenas um litro de etanol! Transformando isso em dados mais reais para quem enfrentará uma estrada, temos um custo por quilômetro de Cr$ 3,64, ou Cr$ 3.640,00 para uma viagem de 1.000 km (cerca de R$ 327 em valores corrigidos até setembro de 2025 pelo IPCA). É claro que seria uma marca difícil de ser obtida em todas as viagens, uma vez que as condições mudam em função da estrada, horário, movimento e carga.
Mas também em outras condições foram obtidos dados animadores – como, por exemplo, os números que indicam o consumo em cidade: 8,2 km/l para centro urbano, 8,8 km/l para bairros periféricos e 9 km/l para vias expressas.
O cômputo desses números, de acordo com a média ponderada de Auto News Brasil, resulta em 8,6 km/l para cidade, ou um custo/quilômetro de Cr$ 6,05 (R$ 0,54 em valores atualizados até setembro de 2025), um ótimo valor, sem dúvida. Em todos os resultados de consumo obtivemos números excelentes, razão pela qual a Belina II mereceu nota máxima nesse item.
As inovações para 1982
O ar-condicionado é a primeira novidade na linha 1982. Por meio de um pequeno painel de controle, situado na parte inferior esquerda do módulo principal de instrumentos, pode-se comandá-lo e receber ótimos resultados.
Apenas para fazer uso de um bom exemplo, estranhamos a ausência do desembaçador térmico para o vidro traseiro. Na primeira oportunidade que tivemos de enfrentar um embaçamento, ligamos o sistema que desembaça o para-brisa e o fluxo de ar, além de limpar a visibilidade frontal, foi, em pouco espaço de tempo, responsável por desembaçar por completo também o vidro traseiro. Demonstrou-se então que não seriam tão necessários os filamentos térmicos ali.
Para enfrentar viagens ou mesmo o trânsito urbano com uma temperatura mais agradável em dias quentes, o sistema de ar-condicionado mostrou-se de rara eficiência, com temperatura agradável sem fluxo direto de ar – e a possibilidade de atuar em curto espaço de tempo.
No mesmo painel de controle está todo o sistema de ventilação, inclusive o ar quente, que funciona gradualmente. As saídas de ar são distribuídas em quatro venezianas de painel, com fluxo dirigível, sendo duas centrais e duas nas laterais. Oferecem também a possibilidade de bloqueio.
Para a melhora da atuação do sistema, foi implantada uma hélice de ventilação adicional em nylon, movida por motor elétrico, acionada automaticamente quando necessário. Ao entrar o compressor em funcionamento, um comando no acelerador registra um novo regime de marcha lenta, cerca de 750 giros a mais, para que a rotação não caia em excesso nas paradas de trânsito.
Aproveitando a referência ao conta-giros, há indicações de como usá-lo. Entre as marcações tradicionais de rotações e seu respectivo limite, encontramos uma zona verde. Começa pontilhada, passa à linha cheia e volta a ser pontilhada. É a faixa “econômica” de utilização do motor, melhorando na linha cheia e chegando ao ponto de economia máxima localizado em cerca de 2.750 rpm.
Outro acessório muito bom para a Belina LDO é o console central. Localizado em boa posição, contém um porta-objetos central com aleta divisória e porta-mapa do lado direito, de bom uso também como porta-revista. Pouco acima, o rádio AM/FM com toca-fitas e mais acima o relógio com calendário e cronômetro, o mesmo que equipa o Del Rey Ouro. A alavanca de mudanças fica pouco atrás, mais bonita e bem melhor de ser operada.
Ainda por dentro, a Belina II LDO ganhou apoios de cabeça, equipamento que a Ford tanto relutou, mas acabou adotando, no mais recente estilo europeu: em poliuretano expandido em forma de elemento vazado. Cumpre sua função, permitindo ainda que se melhore tanto a visibilidade quanto a sensação claustrofóbica dos modelos compactos.
Continuando com os novos equipamentos de segurança, temos agora o cinto inercial de três pontos de fixação com "ponto de relaxamento” que permite uma folga mesmo depois de regulado, evitando o atrito desagradável dos outros modelos.
E o retrovisor externo do lado direito agora também está equipado com comando interno, facilitando muito sua regulagem pelo motorista – vale lembrar que a maioria dos motoristas ainda faz uso incorreto desse precioso auxiliar de visibilidade pela dificuldade de regulagem. Também por dentro, o sentido de rotação das maçanetas de acionamento dos vidros foi invertido.
Três importantes alterações mecânicas
A primeira delas, por ordem de uso, é a implantação de novos limitadores para a alavanca de mudança de marchas. Com isso os engates ficaram mais fáceis, os movimentos mais curtos e a tensão permaneceu a mesma.
A segunda das alterações importantes é a modificação da suspensão, tornando-a mais firme sem endurecer, e eliminando grande parte do balanço que ocorria em curvas em S ou irregularidades do solo. Nas curvas de maior velocidade, pode-se controlar melhor a trajetória, e a forte tendência a sair de frente, embora ainda permaneça, ficou menos acentuada. Pode-se, inclusive, “trazer” a traseira em casos extremos, recurso quase impossível anteriormente.
Como terceiro item pela ordem, mas talvez primeiro em importância, está o novo banho de níquel químico N28 que o carburador recebeu. Evitando em grande parte a corrosão, dispensa o uso de aditivos no etanol. Essa camada não pode ser aplicada antes porque a liga de zinco (zamac) do carburador não a aceitava. Um banho intermediário de cobre eliminou o problema e o aditivo, o que se transforma em grande vantagem a longo prazo.
Conclusão
Definitivamente, o que determina a vantagem de compra de um veículo é o quanto ele é completo para o uso a que se destina, como já dissemos no início da matéria. Os quadros de notas e medições se encarregarão de dizer o resto. Mas ainda vale a pena lembrar que são nos menores detalhes que a evolução de um modelo é avaliada.
No caso da Belina II, a alça de abertura da porta traseira é uma prova disso: ninguém deixaria de comprar o carro se não houvesse, pois até hoje muitos o compraram assim, sem ela. Mas este ano ela está lá, facilitando o manuseio da tampa, sem que o consumidor tivesse exigido isso da fábrica. Convenhamos, é um bom caminho.
Texto publicado originalmente na edição 206, de janeiro de 1982
Notas de Auto News Brasil
| Desempenho | 9 |
| Consumo | 10 |
| Estabilidade | 9 |
| Autonomia | 10 |
| Dirigibilidade | 9 |
| Conforto | 9 |
| Comandos | 9 |
| Painel | 8 |
| Porta-malas | 9 |
| Estilo | 9 |
| Motor | 10 |
| Freios | 9 |
| Direção | 8 |
| Suspensão | 8 |
| Transmissão | 10 |
| Segurança | 9 |
| Nível de ruído | 9 |
| Acabamento | 10 |
| Visibilidade | 10 |
| Iluminação | 9 |
| Média | 9,2 |
Ficha técnica - Ford Belina
| Carroceria e chassi | Carroceria em chapas de aço estampado, tipo perua, três portas e cinco lugares. Estrutura monobloco diferenciada |
| Motor | Dianteiro, longitudinal, quatro cilindros verticais em linha, bloco em ferro fundido, cabeçote em liga leve, árvore de manivelas com cinco mancais, árvore de comando de válvulas lateral acionada por corrente; alimentação por carburador de corpo simples e fluxo descendente; refrigeração a água por embreagem eletromagnética; combustível etanol |
| Diâmetro e curso dos pistões | 76,96 x 83,50 mm |
| Cilindrada total | 1.556 cm3 |
| Potência | 67 cv/49,1 kW (SAE) a 4.800 rpm |
| Torque | 12,2 mkgf/119,5 Nm (5AE) a 2.800 rpm |
| Transmissão | Tração dianteira, embreagem monodisco a seco de acionamento mecânico, caixa de câmbio mecânica de cinco marchas sincronizadas à frente e uma à ré, alavanca de comando no assoalho |
| Relações de câmbio | 1.º) 1:3,46; 2.º) 1:2,21; 3.º) 1:1,42; 4.º) 1:0,97; 5.º) 1:0,86; ré) 1:3,08 |
| Suspensão | Dianteira independente, com braços triangulares inferiores, braços tensores diagonais, barra estabilizadora, molas helicoidais e amortecedores telescópicos hidráulicos; traseira por eixo rígido, braços tensores longitudinais, braço triangular superior, molas helicoidais e amortecedores telescópicos hidráulicos |
| Freios | Freios de serviço de acionamento hidráulico, servo-assistido, com duplo circuito convencional, discos na frente e tambores atrás. Freio de estacionamento mecânico sobre as rodas traseiras, alavanca entre os bancos |
| Direção | Mecânica, tipo pinhão e cremalheira, com 3,5 voltas de batente a batente |
| Rodas | De aço estampado, aro de 13 polegadas, tala de 5 polegadas |
| Pneus | Radiais de aço de perfil baixo, 185/70 SR 13 |
| Distância mínima do solo | 200 mm |
| Tanque de combustível | 63 litros |
| Porta-malas | 388 litros/1.796 litros |
| Peso | 997 kg |
Resultados dos testes de Auto News Brasil
| ACELERAÇÃO | |
| 0 a 80 km/h | 11,5 segundos |
| 0 a 100 km/h | 16,7 segundos |
| 0 a 400 metros | 21,6 segundos |
| 0 a 1.000 metros | 37,8 segundos |
| RETOMADA | |
| 40 a 60 km/h (3ª. m) | 4,2 segundos |
| 40 a 60 km/h (4ª. m) | 7,1 segundos |
| 60 a 80 km/h (3ª. m) | 4,3 segundos |
| 60 a 80 km/h (4ª. m) | 7,4 segundos |
| 80 a 100 km/h (3ª. m) | 6 segundos |
| 80 a 100 km/h (4ª. m) | 7,8 segundos |
| FRENAGEM | |
| 60 a 0 km/h | 16,8 metros |
| 80 a 0 km/h | 27,6 metros |
| 100 a 0 km/h | 44,6 metros |
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