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Carros clássicos
Por
Marcos Rozen
— (transcrição e adaptação do texto de Octávio Sarmento Filho)

O segmento de mercado das picapes leves, dominado pela Volkswagen Saveiro nos anos 90, foi criado no Brasil em 1979, com o lançamento do modelo derivado do Fiat 147, seguido pelas demais marcas, que apresentaram produtos semelhantes. O objetivo inicial era oferecer um utilitário compacto e ágil para transporte de pequenas cargas e que realmente se tornasse uma ferramenta de trabalho, sem no entanto perder as características de um automóvel de uso diário.

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Nos últimos anos, o perfil do usuário dessa categoria de veículos vem mudando significativamente. Exigências por características mais esportivas estão tomando o lugar daquelas normalmente apresentadas por um veículo de carga. Hoje, as picapes leves têm no público jovem o seu principal alvo, e em função disso o apelo esportivo é um fator decisivo para conquistar essa preferência. Não é raro ver essas picapes equipadas para se transformarem em verdadeiras máquinas de velocidade. A moda pegou e, especialmente entre os mais jovens, elas são muito desejadas.

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Janela deslizante no vigia traseiro ajudava na ventilação da cabine — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
Janela deslizante no vigia traseiro ajudava na ventilação da cabine — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

Há dez anos no mercado e com a última reestilização em 1991, a Saveiro é líder absoluta, com participação de aproximadamente 42% deste segmento. Auto News Brasil testou a Saveiro CL 1.6 a álcool com motor AP-1600, em sua versão básica, sem qualquer opcional.

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O acabamento interno é totalmente despojado. Laterais de portas e teto forrados em vinil e os bancos em tecido cinza escuro são bem apropriados para quem não dispõe de tempo para maiores cuidados com a aparência. No pequeno quadro de instrumentos somente o indispensável — velocímetro com odômetro totalizador (de seis dígitos), termômetro de água do motor e medidor de combustível —, além das luzes-espia para as demais funções. Relógio? não existe.

O volante de raios em V invertido, feito em plástico rígido sem nenhum tipo de acolchoamento, apresenta uma pega desconfortável, principalmente em manobras de estacionamento, quando é exigido maior esforço. Itens como porta-objetos no console ou nas portas seriam bem-vindos, mesmo numa versão básica, uma vez que o espaço interno reduzido é uma das características marcantes nessa categoria de veículo.

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Resultado elogiável no teste de estabilidade, mesmo com a caçamba vazia — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
Resultado elogiável no teste de estabilidade, mesmo com a caçamba vazia — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

Usuários com estatura acima da média certamente encontrarão algum problema para se acomodar, devido à menor possibilidade de regulagem tanto do assento como do encosto. A presença da roda reserva e do macaco atrás do banco do acompanhante agrava esse aspecto.

O sistema de ventilação interna forçada, de quatro velocidades e com apenas duas saídas no painel — apesar de não dispor de aquecimento —, é bastante eficiente. A renovação de ar dentro do veículo é ajudada pela vigia traseira de vidro deslizante. Quando aberta, auxilia para desembaçar o para-brisa nos dias de chuva. Os quebra-ventos são fixos.

Capacidade de carga era de 580 quilos ou, em termos de espaço, 852 litros — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
Capacidade de carga era de 580 quilos ou, em termos de espaço, 852 litros — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

A Saveiro pode carregar até 580 kg, capacidade suficiente para transportar, por exemplo, uma motocicleta ou uma moto aquática. O volume disponível na caçamba, até a altura das laterais, é de 852 litros (aferido). A caçamba e a tampa traseira dispõem de frisos de madeira para evitar arranhões, além de alças metálicas no fundo e nas laterais para amarração dos objetos. A grade sobre a vigia traseira é um componente útil e necessário para a proteção da cabine.

Os números de desempenho explicam em parte a preferência pela Saveiro. O motor AP-1600 de 1.596 cm3, que havia sido substituído nesta versão pelo motor AE-1600 em 1990, volta a equipá-la. Sua inquestionável durabilidade certamente é mais um argumento decisivo na escolha daqueles que preferem motores de menor cilindrada mas que não abrem mão de potência quando necessário.

De 0 a 100 km/h em 10,7 segundos e velocidade máxima acima de 160 km/h   — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
De 0 a 100 km/h em 10,7 segundos e velocidade máxima acima de 160 km/h — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

A alimentação por carburador de duplo corpo mostrou-se bem adaptada a todas as condições de uso do motor, mesmo nas partidas a frio, quando é preciso o uso do afogador. Aliás, um carburador eletrônico poderia ser uma boa opção, enquanto não se dispõe do sistema de injeção eletrônica.

Os 90 cv disponíveis e o peso do veículo, de 895 kg, levam à relação peso/potência de 9,9 kg/cv, suficientes para acelerar a Saveiro de 0 a 100 km/h em apenas 10,7 segundos. Para cobrir os 400 e 1.000 metros foram necessários 17,4 segundos e 32,9 segundos, respectivamente. São marcas comparáveis a muitos carros esportivos com motores de maior cilindrada e potência.

VW se arrependeu de usar o AE-1600 e voltou com o motor AP-1600 para a CL — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
VW se arrependeu de usar o AE-1600 e voltou com o motor AP-1600 para a CL — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

Esses dotes atléticos acabam prejudicando o consumo de combustível, que na cidade foi de 7,7 km/l e 9,7 km/l na estrada, um tanto elevado mesmo para um motor dessa cilindrada movido a álcool. A velocidade máxima de 162,7 km/h, atingida em 4ª. marcha, é mais do que suficiente, e só não é maior por questões aerodinâmicas nessa categoria de veículo. As retomadas de velocidade de 40-80 e 60-100 km/h são muito boas, graças ao torque máximo presente a baixas rotações (13,1 mkgf a 2.600 rpm). A quinta, de efeito sobremarcha, prejudica as retomadas de 80-120 km/h.

 Painel da versão era absolutamente simples e extremamente básico — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
Painel da versão era absolutamente simples e extremamente básico — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

O câmbio VW continua preciso, com engates sempre fáceis, ideal para quem gosta de dirigir esportivamente. O comportamento dinâmico não fica nada a dever aos outros membros da família (Gol, Parati e Voyage), a não ser pela calibração mais firme das suspensões, que prejudica o conforto.

A distribuição de peso desfavorável (concentrado na dianteira) não chega a comprometer a aptidão em curvas. Na plataforma de teste (skidpad) a Saveiro apresentou comportamento neutro, e apesar de manter a roda traseira do lado interno fora do chão, atingiu 0,81 g de aceleração lateral.

Acabamento interno passava longe de qualquer aspecto luxuoso — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
Acabamento interno passava longe de qualquer aspecto luxuoso — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

As frenagens com o veículo vazio exigem certa atenção, pois ocorre o travamento prematuro das rodas traseiras, mesmo dispondo de válvula sensível à carga nesse eixo.

Conclusão: a liderança conquistada ao longo dos anos pela Saveiro não é por acaso. Reunir em um utilitário a dose certa de praticidade e principalmente esportividade é a receita do sucesso.

Publicado originalmente na Auto News Brasil número 352, de setembro de 1994

VW Saveiro 1.6 - Resultado do teste

CONSUMO
Cidade: 7,7 km/l
Estrada: 9,7 km/l
ACELERAÇÃO
0-80 km/h: 7 s
0-100 km/h: 10,7 s
0-400 m: 17,4 s
0-1000 m: 32,9
RETOMADA DE VELOCIDADE
3ª. marcha, 40 - 80 km/h: 7,0 s
4ª. marcha, 60 - 100 km/h: 11,2 s
5ª. marcha, 80 – 120 km/h: 19,37 s
VELOCIDADE MÁXIMA
Média de 4 passagens: 162 km/h

Volkswagen Saveiro 1.6 - Ficha técnica

Motor: Dianteiro, longitudinal, quatro cilindros em linha, comando no cabeçote, álcool
Cilindrada (diâmetro x curso): 1.596 cm3 (81,0 x 77,4 mm)
Alimentação: Carburador duplo
Relação de compressão: 12,3
Potência: 90 cv a 5.600 rpm
Torque: 13,1 mkgf a 2.600 rpm
Tração: Dianteira
Relação de diferencial: 4,11
Relações de câmbio (manual):
1ª.) 3,45
2ª.) 1,94
3ª.) 1,29
4ª.) 0,91
5ª.) 0,738
Ré) 3,17
Carroceria: Monobloco em aço, subchassi dianteiro, duas portas, dois lugares
Suspensão dianteira: Independente, McPherson, braço triangular, mola helicoidal, amortecedor hidráulico e barra estabilizadora
Suspensão traseira: Eixo de torção, McPherson, mola helicoidal e amortecedor hidráulico
Freios: Hidráulicos, assistidos; dianteiros a disco e traseiros a tambor
Direção: Pinhão e cremalheira
Diâmetro de giro: 9,7 m
Pneus: 175/70 R13 S
Rodas: 5x13 pol.
Dimensões (cxlxa): 4,060 x 1,622 x 1,368 m
Entreeixos (bitolas d e t): 2,358 m (1,350 e 1,370 m)
Peso: 895 kg
Tanque: 55 litros
Caçamba: 852 litros

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