Teste: Jeep Wrangler Rubicon 2023 é muito legal, mas quem precisa dele?
Ele é o herdeiro de um legado que deu origem ao termo “jipe”. Nasceu para ser robusto, simples e barato. Porém, depois de 75 anos de história, só preservou uma dessas qualidades
Por Ulisses Cavalcante
O Jeep Wrangler é o tipo de carro que você precisa ter em mente para responder às perguntas absurdas e hipotéticas que se faz em conversa de bar. Se nada lhe ocorrer quando perguntarem “qual carro você escolheria para enfrentar o apocalipse zumbi”, considere esse aventureiro para dar cabo desse papo chato.
Caso a pergunta precise vir acompanhada de justificativas, dá para alegar que poucos modelos são tão versáteis e capazes como ele. O Wrangler é robusto, deixa o motorista em posição elevada, arrasta um ônibus (se necessário), sobe pirambeiras e consegue empurrar outros veículos que eventualmente estejam bloqueando alguma passagem.
Imagino que os sobreviventes dessa hecatombe não estarão empenhados em cuidar do asfalto, então não lhe adiantará nada ter um carro baixo. Um 4x4 que funcione fora do shopping será de grande serventia. Aliás, nem sonhe com um diferencial sob demanda com acoplamento viscoso, como os utilitários compactos de Nárnia.
VEJA TAMBÉM
O Wrangler tem eixo Dana 44 na frente e na traseira – com caixa reduzida de 4:1 e crawl ratio de 77:1 – e bloqueios mecânicos nos diferenciais e barra estabilizadora frontal desconectável. Esse recurso aumenta o ângulo possível de torção no eixo dianteiro.
Some a essa base poderosa os pneus de uso lameiro e um motor 2.0 turbo de quatro cilindros a gasolina. São 272 cv e 40,8 kgfm de torque. Esse não é o tipo de carro que precisará de ajuda para sair de atoleiros, buracos ou barricadas. É o carro que irá ao resgate de quem estiver em perigo.
Mas não pense que o Wrangler só seria útil em um mundo sem civilização. Nas rodovias rápidas também não desaponta. Mesmo a 140 km/h não senti perda de estabilidade direcional e tive tranquilidade ao acelerar forte. O bom comportamento do volante em alta velocidade traz confiança ao motorista, sem sinais do perigoso shimmy.
Fiquei surpreso inclusive com o relativo silêncio na cabine. As portas de fibra, juntamente com a parte superior da cabine feita com o mesmo material, surpreende. A cabine, no extremo, pode ser removida por duas pessoas (o ideal seria três, pois é bastante pesada). Todo o teto, bem como as portas, pode ser facilmente removido com o uso de apenas uma chave catracada (que vem inclusa com o carro, por sinal).
Porém esses painéis que podem ser removidos por partes, como os dianteiros ou apenas o do motorista, bem como a estrutura rígida da capota, são desajeitados. Se não houver espaço em casa, o jeito é deixa-los no porta-malas, o que toma espaço de carga. Ou seja, é necessário prever se haverá paradas pelo caminho e, inclusive, prestar atenção no clima, antes de iniciar um passeio de aventura.
É claro que os pneus de uso misto 70/30 são ruidosos acima dos 100 km/h, mas menos do que eu esperava. O isolamento acústico é muito competente, até porque precisa dar conta de um sistema de som respeitável, da marca Alpine.
As manobras não oferecem dificuldade, pois até o formato quadradão da carroceria ajuda a entender os limites do carro. As câmeras na dianteira e traseira aliadas aos sensores de estacionamento garantem a visibilidade clara de objetos próximos. Também praticamente não há resistência da direção, pois a assistência é do tipo eletro-hidráulica.
Os alto-falantes estão localizados na parte inferior do painel e presos à travessa superior do santantonio. Essa disposição permite que o sistema de áudio funcione mesmo no “modo conversível”. A qualidade do áudio oferece uma experiência premium e dá direito a um subwoofer instalado no porta-malas. No total, são dez falantes.
Para os usuários que não são sobrevivencialistas, nem estão preocupados com um improvável colapso da humanidade, o Wrangler automatiza (ou facilita) uma série de tarefas que, a rigor, são do motorista.
Uma câmera instalada junto às sete fendas da grade do radiador facilita a visualização de obstáculos na trilha. As imagens são exibidas na tela da central multimídia – um display de 8,4 polegadas. Há monitoramento na parte traseira também, inclusive sensor de tráfego cruzado. Esse recurso é útil ao sair de vagas em marcha à ré, pois emite alerta de carros em fluxo perpendicular.
Ele tem controle de velocidade adaptativo (acelera e freia acompanhando o trânsito), monitor de ponto cego e frenagem de emergência autônoma. O farol alto funciona automaticamente, bem como o controle de estabilidade no modo off-road, que compensa o escorregamento das rodas conforme o tipo de piso.
Há também controles de partida em rampa e de descida, que ajusta automaticamente a frenagem conforme a velocidade máxima pré-estabelecida para enfrentar o declive.
O ar-condicionado tem ajustes digitais, com controle de temperatura automático. Todo o sistema de som pode ser controlado por meio de comandos no volante – e o motorista tem ao seu dispor ajustes milimétricos da coluna de direção (longitudinal e de altura). Isso sem considerar o conforto de uma caixa automática de oito marchas.
Todo o interior é lavável – com tapetes de borracha e drenos no assoalho – então literalmente é possível lavar as partes mais baixas com uma mangueira.
Na hora da compra, só há três versões possíveis, sem opcionais. A gama começa com o Wrangler Sahara, de duas portas, por R$ 456.992. É seguido pelo Sahara de quatro portas, a R$ 466.889. E, por fim, o carro das fotos, um Wrangler Rubicon vendido exclusivamente com quatro portas que custa R$ 481.834.
Esse valor inclui qualquer uma das cinco opções de cores (prata metálico, preto sólido, branco, chumbo e vermelho), sem que o comprador seja aborrecido com custos extras. É um carro divertidíssimo, bonito, bom de guiar e capaz de trazer um conforto emocional para quem o usa. Mas a um preço insanamente elevado.
Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da Auto News Brasil? É só clicar aqui para acessar a revista digital.









