Neta tem dívida milionária no Brasil enquanto tenta se reerguer na China
Empresa revendeu 500 veículos a países da América do Sul para quitar débitos e reduzir estoque em portos brasileiros; marca diz "viver momento de reestruturação"
A Neta segue em situação delicada no Brasil. A marca chinesa, segundo apurado por Auto News Brasil, deve pelo menos R$ 2 milhões para fornecedores e não honrou compromissos com seu concessionário: o Grupo Genial — atualmente dono da única loja da marca no país, localizada no Rio de Janeiro (RJ).
Por meio de documentos obtidos e depoimentos colhidos, a reportagem chegou ao cenário acima descrito. É provável, inclusive, que a dívida da marca chinesa no país seja ainda maior. A Neta não realizou pagamentos a fornecedores da área de marketing, enfrentou problemas com sua operadora logística em Cariacica (ES) e deixou de cumprir acordos comerciais com o Grupo Genial, dono da Potenza.
Ainda segundo apurado, até o momento não quitou integralmente, por exemplo, campanhas de incentivo realizadas pela concessionária. Questionada por Auto News Brasil, a Neta disse que "não comenta as especificidades de sua relação comercial com parceiros empresariais". O Grupo Genial também foi procurado, mas não deu retorno até a publicação desta matéria.
Vale lembrar que relações entre montadora e concessionários no Brasil são regidas pela Lei Ferrari — que ainda vigora, embora em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposta inconstitucionalidade. Segundo a disposição legal, qualquer obrigação financeira assumida pela montadora é exigível pelo concessionário. Este, se considerar necessário, pode levar o caso para a Justiça.
No caso da área de marketing, o acúmulo de dívidas incapacitou a estratégia da marca em trabalhar com eventos físicos e investir em redes sociais. Não à toa, suas contas em Instagram e LinkedIn seguem desativadas, bem como o site oficial no país, conforme contamos neste outro artigo. Os perfis chegaram a ser reativados por algumas semanas, mas posteriormente foram novamente tirados do ar.
No entanto, o maior gargalo se encontrava em sua relação com a operadora logística. Os veículos se encontravam retidos em Cariacica, sem que a marca pudesse fazer algo. Segundo o Regulamento Aduaneiro, tal pode ser feito pelo administrador até que a dívida seja quitada.
Neta vendeu parte da frota no Brasil para o exterior
Para mitigar parte desse problema, a Neta foi capaz de negociar cerca de 500 veículos para outros países. Na negociação, os compradores arcaram com dívidas. Em resposta, a empresa revelou que "os veículos recebidos no Brasil estão disponíveis para vendas nacionais e externas, atendendo à demanda de diferentes mercados", mas que ainda tem como foco principal o nosso território.
No momento, a Neta tem cerca de 300 unidades em Cariacica. No total, a marca deve ter hoje, estima Auto News Brasil, estoque de 400 carros no país.
Bom dizer que o operador tem respaldo legal até mesmo para pedir à Justiça a leilão dos carros para cobrir dívidas. E, segundo interlocutores, a Neta chegou a correr risco de fato de sofrer perdas irreversíveis.
A reportagem também apurou que a Neta fechou contratos para vendas de veículos a frotistas. Tal movimento, aliado à comercialização de carros para o mercado externo, ajudará a reduzir o estoque da empresa no Brasil. Sobre isso, a marca afirma que "segue atendendo tanto vendas diretas quanto varejo, conforme sua política comercial, e mantém negociações em andamento para atender diferentes perfis de clientes".
A única loja da marca no país, a Neta Potenza, comercializa os dois veículos da companhia por preços promocionais. Os modelos Aya e X têm preços atualmente a partir de R$ 123.900 e R$ 205 mil, respectivamente. As unidades ainda são de ano/modelo 24/24. Além da oferta, clientes podem levar wallbox e carregador portátil grátis.
Mesmo assim, a Neta teve apenas 64 veículos licenciados no Brasil no acumulado do ano até julho. No mês passado, vale ressaltar, somente cinco unidades (três do Aya e duas do X) foram emplacadas. Os dados são da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
A Neta continua no Brasil?
Este, contudo, é mais um capítulo na curta história da Neta no Brasil. E a marca, inclusive, faz questão de reforçar que segue no Brasil. À Auto News Brasil, a companhia "reafirma que as operações no país continuam regularmente, com o cumprimento integral dos contratos vigentes".
Bom frisar que, conforme apurado pela reportagem, embora a empresa conte atualmente com quadro de funcionários enxuto, não há (nem houve) atrasos salariais no Brasil. Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, na China.
Todavia, segundo a imprensa internacional revelou, quase 50 investidores se demonstraram interessados em atuar na reestruturação da Hozon, controladora da Neta. As partes têm até 15 de setembro para depositar US$ 6,9 milhões de dólares (R$ 37,2 milhões em conversão direta) a fim de ajudar na recuperação da companhia.
"A Neta, em sua sede, está rapidamente concluindo o plano de reorganização, amplamente divulgado na mídia, e espera anunciar novidades em breve", reforça a empresa, que também diz "avaliar novas oportunidades de expansão" no Brasil.
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