Confusão do Denatran e Ibama diferencia Audi e Mercedes que têm tecnologia híbrida igual
Processo de homologação complexo criou situação inusitada no Brasil
Por Rodrigo Ribeiro
Os híbridos leves são carros que usam um motor extra elétrico para reduzir o consumo, mas não são capazes de rodar por aí sem gastar gasolina ou etanol. Mesmo assim, a legislação permitiu que a Mercedes homologasse o C200 EQ Boost sob o mesmo chapéu de Toyota Prius e Ford Fusion, tendo acesso a benefícios fiscais e, de quebra, à primazia de fazer o "primeiro híbrido nacional".
O novo Audi Q7 detém a mesma tecnologia, mas foi classificado como um SUV convencional, perdendo vantagens como a isenção de rodízio em São Paulo e IPVA menor em alguns estados. A confusão aconteceu por conta de uma legislação confusa e ainda obscura acerca de algumas tecnologias.
O resultado: do ponto de vista legal, os dois carros com sistemas idênticos não são considerados iguais.
O Denatran explicou a situação de forma sucinta para Auto News Brasil. "A homologação do veículo é realizada a partir das informações prestadas pelo fabricante ou importador do veículo. Nesse sentido, informamos que o veículo Mercedes C200 EQ Boost foi homologado como híbrido (elétrico e gasolina). No entanto, não identificamos nenhum processo de Audi Q7 que tenha sido homologado como híbrido", afirmou o órgão.
A ausência de processo específico para híbridos com o Q7 foi detalhado pela própria Audi. Segundo a fabricante, a justificativa foi (finja alguma surpresa) a legislação brasileira confusa.
"Na época de homologação do novo Q7 para o mercado brasileiro, existiam algumas dúvidas legais quanto à possibilidade de homologar o modelo como híbrido. Como estas dúvidas não foram sanadas até o momento da homologação na Europa, a Audi do Brasil decidiu iniciar o processo como um veículo tradicional à combustão, mesmo com carga de impostos maior do que as de um veículo híbrido."
Mas o Ibama, um dos órgãos responsáveis pela homologação de automóveis no Brasil, deu a palavra final: o Q7 não seria classificado como híbrido nem se a Audi quisesse. "Os veículos Mercedes e Audi são de porte diferentes, o que explica a aprovação de um e reprovação [como híbrido] do outro", afirmou.
Ironicamente, nem a Audi e Mercedes consideram seus carros híbridos. As fabricantes defendem que, como o motor elétrico pequeno não é capaz de mover o veículo por conta própria, esses modelos são considerados internamente como versões convencionais a combustão.
"A tecnologia EQ Boost visa reduzir emissões e o consumo de combustível, mas não pode ser equiparada aos híbridos tradicionais", detalha Dirlei Dias, gerente sênior de vendas e marketing da Mercedes do Brasil. "Mas o C200 é um híbrido do ponto de vista legal, inclusive no aspecto de tributação."
Isso girou uma situação inusitada para a marca: se fosse classificado como um carro convencional, essa versão pagaria 13% de IPI, já que seu motor a gasolina tem 1,5 litro de cilindrada, ficando na faixa de cobrança de 1.1 a 2.0.
Mas a taxação dos híbridos e elétricos no país ignora o deslocamento e potência dos motores e considera a massa total do carro. Aí a tecnologia EQ Boost pesa (com o perdão do trocadilho) no bolso, e faz o imposto subir para 19%.
Nos detalhes
E, no final das contas, o que é um carro híbrido sob o ponto de vista da legislação brasileira. Quem nos respondeu foi Sandro Alves, engenheiro de assuntos regulatórios da Mercedes no Brasil.
"A bateria do carro precisa ter capacidade para entregar 2% ou mais da energia consumida pelo carro no ciclo de testes em dinamômetro", detalha.
Medir essa energia não é nada fácil: enquanto o consumo de combustível é medido analisando a massa da gasolina (ou etanol/diesel) queimada durante as provas em laboratório, com a energia elétrica o assunto muda de figura.
Neste caso é necessário adicionar uma série de equipamentos específicos para medir variações de tensão e corrente. São aparelhos tão sensíveis que é preciso até desmagnetizar os sensores antes de cada prova, para evitar qualquer interferência.
Também são necessários alguns ciclos de rodagem antes das medições propriamente ditas, para equilibrar a carga da bateria de alta tensão e permitir que ela não influencie nas provas", continua Alves.
Até o processo de recarga (nos casos dos híbridos plug-in) é monitorado, e deve ser feito em ambiente com temperatura e umidade controlados. "As rodagens necessárias em laboratório para homologar um carro híbrido no Brasil podem consumir mais de uma semana", falou Rodrigo Konji, coordenador da comissão técnica de veículos propelidos à eletricidade da AEA durante curso da entidade sobre, adivinhe: homologação de carros híbridos e elétricos no país.
Se as regras ainda não ficaram claras para você, não se martirize: as próprias montadoras estão sofrendo com o tema, e o problema deve ficar ainda mais complexo no futuro, com a chegada de tecnologias como a híbrida-série do Nissan Kicks.
Quem sai perdendo com a bagunça governamental, claro, é o consumidor. Seja pagando mais impostos, como no Classe C, seja sem ter acesso à benefícios fiscais e de circulação, como os donos do novo Q7.
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