Fim das Autobahnen: Alemanha estuda acabar com as estradas sem limite de velocidade
O sonho dos brasileiros (e realidade para os alemães) pode estar com os dias contados. O motivo? Conter a emissão de poluentes
Por Ulisses Cavalcante
O governo alemão está estudando propostas para limitar a velocidade dos carros nos diversos segmentos “livres” das rodovias do país, a contragosto dos motoristas. As Autobahnen são famosas no mundo todo por permitirem que seus usuários façam uso de toda a escala do velocímetro sem o risco de multas ou punições.
Não sabia disso? Pois é isso mesmo: em determinados trechos das vias expressas, é possível dirigir em altas velocidades sem criar problemas com a lei. Porém, uma discussão recente pretende impor barreiras à agulha do mostrador, limitando os veículos a máxima de 130 km/h.
Como era de se esperar, o debate está superaquecido entre a população motorizada, que não está disposta a aliviar o pé em nome da qualidade do ar (que, na Alemanha, não é ruim).
A alegação do governo é que as emissões de gases oriundos do transporte não caem desde os anos 90, apesar do aumento de eficiência energética dos automóveis. Individualmente os carros estão mais limpos, porém a frota nacional crescente relativiza o ganho tecnológico.
A ADAC, principal clube de automobilismo alemão, já se posicionou contra a medida, e a organização representa os interesses de pelo menos 20 milhões de integrantes. Atualmente, cerca de 30% dos 12.900 quilômetros de rodovias já têm restrições aos pé-de-chumbo, porém nenhuma delas relacionadas ao que sai do escapamento. Onde há limites, existem razões de segurança ou por conta de proximidade com áreas densamente populosas – o que requer a redução das emissões de ruídos.
As discussões acerca da proibição de velocidades insanas ainda estão em estágio preliminar, mas devem estar finalizadas até março (eles são alemães, gente). Fóruns governamentais de toda a união europeia discutem a redução de poluentes e a Alemanha é signatária de vários acordos, inclusive o de reforçar os requisitos legais para a homologação de novos veículos.
Com a adoção de veículos elétricos, Paris, por exemplo, já prevê o banimento de carros a combustão até 2025. Na terra de Michael Schumacher, Sebastian Vettel e Walter Röhrl, as estradas sem limite de velocidade são tradicionais e, de certa forma, um símbolo nacional, como a Oktoberfest, a Bratwurst e o Apfelstrudel.
Naquele país, o governo não interfere nas decisões sobre o pedal direito alheio por realmente entender que o motorista é responsável pelas escolhas que faz. Eles têm três características que não temos aqui: 1) de fato o condutor entender que faz parte de um sistema integrado e que suas ações interferem na vida dos outros, 2) as regras de trânsito são cumpridas à risca e os infratores são punidos e 3) o treinamento de motoristas é rigoroso.
A primeira Autobahn surgiu em 1932, antes da Segunda Guerra. Durante o conflito, houve restrições de rodagem para a população com o intuito de economizar combustível. É por isso que mesmo cidadãos sêniores, homens e mulheres de cabelos totalmente brancos, se irritam profundamente quando alguém trava a pista da esquerda a 140 km/h. Essa atitude é uma das raras que fazem os alemães perderem a compostura.
Como a regra é a mesma, imutável, e universalmente respeitada a três gerações, ninguém se atreve a alugar a pista rápida para cruzar o país. Lá, a faixa mais à esquerda da via é exclusiva para ultrapassagens. Na Alemanha, o controle de velocidade é, paradoxalmente, extremamente rigoroso em áreas urbanas. O controle é fiscalizado por radares, majoritariamente.
Mesmo com as estradas sem imposição de limite de velocidade, o índice de mortes no trânsito é baixíssimo, com registro de 4,3 mortes por 100.000 habitantes. No Brasil, a taxa é de 23,4 fatalidades a cada 100.000 pessoas. A média mundial é de 17,4. O país com o pior índice é a Líbia, com 73,4 mortes em 100.000 cidadãos.
Mais um bônus para você que está invejando os alemães: não há cobrança de pedágios nas estradas da Alemanha. Durma com essa.