Teste: Citroën Basalt 1.0 faz 16,3 km/l e é SUV para quem não tem pressa
SUV 1.0 aspirado manual é o mais barato, mas também o mais lento do Brasil; por outro lado, é bem equipado, espaçoso e econômico
Descobri o provérbio “devagar se vai ao longe” na pré-adolescência, enquanto me perdia no sofrimento elevado à décima potência do emo — subgênero musical que advém do punk rock. A frase serve de título a uma canção do grupo Pedro the Lion, que invadia meus fones de ouvido sempre que queria chorar uma ou outra pitanga.
Mas o ditado é muito, muito mais antigo. É, por exemplo, a ideia central de uma das fábulas de Esopo. E o que esse nariz-de-cera (definição do jornalismo para a boa e velha “enrolação”), que passa pelo emo e pela Grécia Antiga, tem a ver com o Citroën Basalt Feel MT, a versão de entrada do crossover compacto? Respondo: nem sempre a tartaruga vence a lebre.
O modelo da marca francesa é, atualmente, o SUV mais barato do Brasil. Custa, hoje, R$ 91.990 naquele esquema da marca de venda direta para pessoas físicas. No lançamento, saía por R$ 89.990. De acordo com a fabricante, a opção de entrada é a escolha de 12% dos clientes do Basalt.
A grande diferença dessa configuração em relação à Feel turbo é o conjunto mecânico: esta tem o motor 1.0 Firefly aspirado flex, de três cilindros em linha e seis válvulas, que rende 71 cv de potência e 10 kgfm de torque com gasolina, sendo 75 cv de potência e 10,7 kgfm de torque com etanol. Trata-se de herança da Fiat, fruto da sinergia entre as marcas do grupo Stellantis.
Os números, bom frisar, passam longe dos 130 cv e 20,4 kgfm do 1.0 turbo das demais versões. Além disso, o câmbio da opção avaliada é manual de cinco marchas, ao contrário da caixa do tipo CVT com sete velocidades simuladas das demais configurações.
De acordo com o Inmetro, o Citroën Basalt Feel 1.0 MT já adaptado para o Proconve L8 faz 13,2 km/l na cidade e 14,3 km/l na estrada, quando abastecido com gasolina. Com etanol no tanque, as médias ficam em 9,2 km/l e 10,1 km/l, respectivamente. O tanque de combustível do SUV tem capacidade para 47 litros.
Nos testes de Auto News Brasil, com gasolina no tanque, ficamos aquém do número oficial no consumo urbano, mas superamos o rodoviário: 10,8 km/l na cidade e 16,3 km/l na estrada. Ou seja, o novo Basalt 1.0 aspirado flex é mesmo um SUV econômico.
Iguais às de todos os outros carros da Stellantis que usam esse conjunto motriz, as relações de marcha do Basalt 1.0 manual não são das melhores. A primeira é excessivamente curta e acaba muito rápido. Para completar, como o motor é relativamente fraco, em baixas rotações há aquela queda abrupta quando engatamos a segunda. A troca tem de ser precisa, na faixa certa. O indicador no painel ajuda a acertar o tempo.
Na estrada, nem preciso dizer ao leitor, ágil que é, que a segunda acaba rapidamente. A terceira marcha tampouco é longa e o condutor precisa dar uma boa esticada para pegar o embalo necessário antes de chegar à quarta, principalmente em retomadas.
No nosso teste de 80 km/h a 120 km/h, em quinta marcha, o Basalt levou eternos 27,2 s. Como referência, a versão turbinada foi 20 s mais rápida. Sim, cumpriu a mesma prova em 7,1 s. Já a prova de 0 a 100 km/h foi feita em longos 16,9 s, o que torna o Basalt Feel 1.0 Manual o atual carro zero-quilômetro mais lento à venda no mercado brasileiro...
E a lebre só vai se distanciando. O diferencial é muito curto e o motor tem de girar mais alto. Com isso, na estrada, o barulho é elevado. Ademais, os engates não são tão precisos, característica já conhecida desse câmbio, e o curso da embreagem é demasiadamente longo.
Mas há flores para a tartaruga. A suspensão do Basalt tem a melhor calibração entre todos os Citroën à venda no Brasil atualmente. De longe. Absorve bem as imperfeições do solo e dispõe de rigidez interessante nos amortecedores, o que ajuda a mitigar a rolagem da carroceria.
Em relação ao visual, o SUV cupê possui um design agradável. Tem faróis com efeito duplo que formam um X aliados à grade superior — similar aos dos irmãos C3 e Aircross. Ao centro, fica o logo da Citroën, que, embora bem posicionado e muito elegante, não foi renovado como no caso do Jumpy. E vou te contar: esses deux chevrons atuais até me agradam mais do que os da versão reestilizada.
Nas laterais, as rodas são de 16 polegadas com pneus 205/60 R16. Nessa área, o SUV cupê revela linhas muito similares às do Aircross. No entanto, o Basalt possui molduras plásticas com a parte de cima mais reta; as do irmão são arredondadas. As saias laterais, por sua vez, são mais finas e delicadas.
As maçanetas vêm pintadas na cor da carroceria e os retrovisores têm luzes indicadoras. Os vidros têm molduras em preto e o caimento do teto garante uma harmonia que não existe em outros veículos que tentam fazer o mesmo. Alô, Fiat Fastback. Estou me dirigindo a você.
No quesito dimensões, o Basalt tem 4,34 metros de comprimento, 1,82 m de largura com os espelhos rebatidos, 1,58 m de altura e entre-eixos de 2,64 m — um pouco menor que o do Aircross. Já o porta-malas é excelente para o segmento, com 490 litros. O vidro traseiro de bom tamanho é integrado à tampa e dá um charme adicional ao crossover, que fica com uma carinha de notchback.
Por dentro, há espaço de sobra para os passageiros do banco traseiro e o acabamento é frugal. A Citroën até tentou trabalhar com texturas diferentes, porém usou plástico rígido em demasia. O console central também é econômico.
O ar-condicionado não é digital, mas gela bem e tem saídas verticais nas extremidades e horizontais ao centro. Além disso, há central multimídia de 10 polegadas com Android Auto e Apple CarPlay por cabo, câmera de ré e painel de instrumentos digital de 7 polegadas.
Os bancos têm forração digna, mas a ergonomia é um problema. Os botões de acionamento dos vidros traseiros ficam no meio do console e a posição de dirigir é excessivamente elevada.
Posto tudo isso, será que vale a pena apostar no Citroën Basalt Feel manual? Até a chegada do Volkswagen Tera, esse é o único SUV 1.0 aspirado. Contudo, em termos de custo/benefício, perde para a versão Feel com motor turbo e câmbio CVT, só R$ 8 mil mais cara. Se você faz questão de câmbio manual, o Renault Kardian, de R$ 107 mil, está aí para isso. No caso do Basalt, definitivamente, “devagar não se vai ao longe”.
Citroën Basalt Feel 1.0 MT - Prós e contras
- Pontos positivos: preço, consumo, lista de equipamentos, espaço interno e porta-malas
- Pontos negativos: desempenho, acabamento interno simples, acústica e ergonomia
Ficha técnica - Citroën Basalt Feel 1.0
| Preço | R$ 91.990 |
| Motor | Dianteiro, transversal, 3 cilindros em linha, 1.0, bicombustível |
| Potência | 75 cv a 6.000 rpm |
| Torque | 10,7 kgfm a 3.250 rpm |
| Câmbio | manual, 5 marchas, tração dianteira |
| Suspensão | Independente, McPherson (diant.) e eixo de torção (tras.) |
| Freios | Discos ventilados (diant.), tambor (tras.) |
| Pneus | 205/60 R16 |
| Comprimento | 4,34 metros |
| Largura | 2,01 metros |
| Altura | 1,58 metros |
| Distância entre-eixos | 2,64 metros |
| Tanque | 47 litros |
| Porta-malas | 490 litros (padrão VDA) |
| Peso | 1.120 kg |
| Consumo (Inmetro) | 13 km/l na cidade e 14,6 km/l na estrada com gasolina e 9,3 km/l em ciclo urbano e 10,2 em rodoviário com etanol |
| Velocidade máxima | 157 km/h |
| Multimídia | 10 polegadas com conexão com Android Auto e Apple CarPlay |
Desempenho
| ACELERAÇÃO | |
| 0 a 40 km/h | 3,9 segundos |
| 0 a 80 km/h | 11,27 s |
| 0 a 100 km/h | 16,92 s |
| 0 a 120 km/h | 26,22 s |
| 0 a 400 metros | 20,53 s |
| 0 a 1.000 metros | 37,85 s |
| Velocidade a 1.000 metros | 137,9 km/h |
| Velocidade real a 100 km/h | 96 |
| RETOMADA | |
| 40 a 80 km/h | 9,22 s |
| 60 a 100 km/h | 15,35 s |
| 80 a 120 km/h | 27,22 s |
| FRENAGEM | |
| 100 km/h a 0 | 46,73 metros |
| 80 km/h a 0 | 28,93 m |
| 60 km/h a 0 | 16,33 m |
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