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Carros

Por Marli Olmos

Repórter especial do Valor Econômico e tem grande foco na indústria automobilística

A pandemia exacerbou a distância entre classes sociais de várias formas. Entre os exemplos mais marcantes, a necessidade de isolamento expôs, por exemplo, o abismo que separa o estudante de baixa renda daquele que conseguiu acompanhar todas as aulas a distância graças a uma boa velocidade de conexão à internet.

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Na área da saúde, logo no início do surto da covid-19, apareceram, no noticiário, cenas de pacientes endinheirados que deixavam suas cidades a bordo de jatos particulares rumo a hospitais de ponta em São Paulo.

E, assim por diante, não faltaram histórias de quem pôde, por exemplo, dar-se ao luxo de cumprir a quarentena numa confortável fazenda enquanto às famílias que dividem um único cômodo restava apenas rezar para que ninguém fosse contaminado.

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Do lado da mobilidade, há também muito para contar. O transporte público transformou-se num vilão, foco de disseminação do novo vírus tão perigoso quanto um corredor de qualquer Pronto-socorro.

Quem pôde, fugiu de ônibus, trens e demais meios compartilhados, seguindo, assim, uma direção contrária a tudo o que até então se propagava como futuro para o deslocamento sensato nos grandes centros urbanos.

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Nas concessionárias de veículos, vendedores se apavoraram, nos primeiros dias, com o “sumiço” do consumidor e a obrigação de fechar as portas para cumprir novas leis sanitárias. Mas, depois, aos poucos, com a permissão para reabertura do comércio, começaram a aparecer clientes com um punhado de novas razões para desejar o transporte individual.

Proteger-se do vírus dentro de um carro levou muita gente que guardara dinheiro a trocar planos de viajar pela compra de um automóvel, nem que fosse pequeno, ou mesmo usado.

Quando a situação econômica do país e a financeira de cada um começaram a ficar mais claras, o mercado mostrou-se o porto seguro também para quem estava insatisfeito com o rendimento das aplicações financeiras. E, a partir daí, o mais rico ficou mais propenso a comprar automóveis.

A Volvo, marca líder no mercado de SUVs premium, teve setembro como o melhor mês da sua história no Brasil. A Porsche, com um catálogo de modelos que custam acima de R$ 500 mil, registrou alta de 62,5% nas vendas de janeiro a setembro.

De modo geral, as vendas de carros importados, que se concentram no segmento luxuoso, foram menos prejudicadas pela crise provocada pelo novo coronavírus do que o mercado total de automóveis e comerciais leves, que encolheu 32,28% de janeiro a setembro. Segundo a Abeifa, entidade que representa os importadores, o volume de veículos trazidos de países fora do Mercosul registrou retração menor, de 20,8% no acumulado dos nove meses.

Além de mais favorável ao público de alta renda, o cenário indica, ainda, que a quantidade dos que podem comprar carro 0 km no Brasil tende a encolher ainda mais.

Além da perda de renda de grande parte da população e do aumento dos índices de desemprego, os carros estão mais caros. Os preços já subiram entre 2% e 5% neste ano e vários fabricantes avisaram que os reajustes não vão parar por aí.

Encurraladas pela crise e pressionadas pelas matrizes a evitar prejuízos no Brasil, as montadoras não têm poupado o consumidor da pressão de custos, provocada por fatores como elevação dos preços de matérias-primas, desvalorização do real e aumento de ociosidade.

O carro tem sido a “máscara” de proteção preferida por muitos em tempos de pandemia. E tende a continuar assim mesmo depois que surgirem as vacinas.

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