Grenal: como rivalidade entre Inter e Grêmio mudou o logo da Chevrolet
GM do Brasil se viu diante de um dilema ao patrocinar de uma vez só os rivais do Rio Grande do Sul
O Brasil é um país muito grande e, por isso, as regionalidades são bastante acentuadas. Isso acontece também na indústria automobilística: a Fiat, por exemplo, tem uma forte ligação com Minas Gerais, por possuir fábrica em Betim desde 1976. A Ford, a partir dos anos 2000, criou uma relação direta com a Bahia, onde era fabricado o EcoSport. E por aí vai.
Já a General Motors, assim como a Volkswagen, sempre foi tradicionalmente paulista. Afinal, cresceu no ABC, mais precisamente em São Caetano do Sul, e contava com outra fábrica em São José dos Campos.
Só que, em 1997, a montadora anunciou a escolha de Gravataí, no Rio Grande do Sul, para construção de uma terceira fábrica, onde produziria o Celta. Ainda hoje, essa é uma das unidades mais importantes da empresa no país. Ali é fabricada a família Onix, modelo mais vendido da companhia. Ao todo, já saíram dessa linha de montagem, desde 2000, mais de 4,5 milhões de carros.
Acontece que naquele momento, próximo ao fim dos anos 1990, a GM não tinha absolutamente nenhuma identificação com o Rio Grande do Sul. Aliás, aquela seria sua primeira fábrica fora do estado de São Paulo. A montadora passou, então, a procurar formas de se aproximar dos gaúchos. E teve uma sacada genial. Pela primeira vez na história, os dois principais times de futebol do Rio Grande do Sul, o Grêmio e o Internacional, passariam a contar com o mesmo patrocinador — a Chevrolet. O anúncio ocorreu em 1998, na sede do governo estadual gaúcho, o Palácio Piratini.
O acordo, porém, quase melou por um detalhe importantíssimo, revelador do tamanho da rivalidade entre as duas equipes.
O Internacional disse que não fecharia nada se a GM quisesse que sua tradicional gravatinha fosse estampada em azul na camisa do time. O Grêmio não deixou por menos e avisou que de jeito nenhum a grafia Chevrolet sairia em seu uniforme na cor vermelha. Ou seja: apesar de contar tanto com o azul, a cor associada ao Grêmio, quanto com o vermelho, a cor do Inter, em seu logotipo, no quesito gráfico a montadora conseguia a proeza de desagradar os dois clubes.
Executivos da GM tentaram argumentar que aquilo era bobagem, pois já naquela época a marca usava nos carros a gravatinha Chevrolet cromada em fundo preto, ou seja, nem azul nem vermelho. O pessoal da montadora, entretanto, não fazia ideia do tamanho da representação dessas duas cores para ambos os times. Os dirigentes das duas equipes já cortaram a conversa de cara, dizendo que essa condição era inegociável. As coisas ameaçavam complicar-se.
E não teve jeito. Para fechar o acordo com as duas mais populares equipes do estado, a GM teve de se comprometer a não usar nem vermelho nem azul nas camisas dos times, abdicando das duas cores de seu tradicional logotipo para agradar a gregos e troianos. Ou melhor, a gremistas e colorados.
Outra curiosidade é que, na revelação do acordo, foram apresentados os uniformes principais e reservas dos dois clubes, vestidos pelos jogadores Fernando e Christian, do Inter, e Tinga e Danrlei, do Grêmio, intercalados. A camisa principal do Inter tinha o logotipo Chevrolet bem grande estampado em branco com fundo vermelho; na reserva, era o inverso. Nas camisas do Grêmio o logo foi aplicado em branco dentro de um retângulo preto (titular) e em preto no fundo azul (reserva). Quando a bola rolou, porém, as camisas oficiais não foram usadas dessa forma.
Talvez para fugir de qualquer polêmica relacionada às cores, a montadora optou por usar nos uniformes o nome de seus produtos em maior destaque, como Corsa, Astra, Celta, Vectra e S10, deixando o nome Chevrolet por extenso no alto das costas, acima do número, onde normalmente hoje vemos o nome dos jogadores. E tudo, sempre, em branco ou preto. Em algumas oportunidades, a GM ainda mostrou outras de suas marcas, como GMC e Banco GM, em lugar da Chevrolet.
Nas três temporadas de duração do patrocínio conjunto, entre 1998 e 2000, Grêmio e Internacional se enfrentaram 11 vezes, com resultados equilibradíssimos: quatro empates, quatro vitórias do Grêmio e três do Internacional. Pode-se dizer que o Grêmio se saiu melhor, pois além de ter uma vitória a mais no confronto direto, conseguiu dois títulos no período, a Copa Sul de 1999 e o Campeonato Gaúcho do mesmo ano — batendo, na final, justamente seu maior rival. Algum golaço? Sim: da GM.
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