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Curiosidades sobre carros
Por
Marcos Rozen

Você, caro(a) leitor(a), acaba de ganhar o crachá Super VIP. Agora, pela primeira vez em 64 anos, poderá entrar na secretíssima sala do Departamento de Estilo e Design da Willys Overland do Brasil, área de acesso totalmente proibido para reles mortais instalada na fábrica de São Bernardo do Campo (SP).

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Só pela estrutura do ambiente já se nota o quanto olhos curiosos são indesejados. As portas de vidro ficam completamente encobertas por largos adesivos. Pesadas cortinas tampam totalmente as janelas. Iluminação, ali, só mesmo das lâmpadas: não existe uma pequena fresta sequer para entrada da luz do dia, já que ela poderia servir de espia para uma sorrateira câmera fotográfica.

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Estamos em setembro de 1960 e a Willys Overland é a maior fabricante de automóveis e utilitários do Brasil. No primeiro semestre saíram da sua linha de montagem 15 mil veículos, ante 11 mil da vizinha Volkswagen. Ford e Chevrolet nem sonhavam em produzir carros aqui, enquanto a Fiat sequer sabia onde ficava Betim ou outra localidade na América do Sul.

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Mais do que líder nas vendas, a Willys brasileira tinha um departamento de estilo e design muito ativo. De lá saíram os primeiros modelos legitimamente desenhados no país, como a Rural e o Aero Willys — mesmo que a base mecânica ainda fosse estrangeira.

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Normalmente, já haveria razão suficiente para que a sala do departamento fosse blindada aos olhos de fora; porém, nesse momento específico de nossa visita, há ainda mais. Dois segredos ali precisam ser muito bem guardados, pois ninguém, fora a alta diretoria da empresa e os funcionários da área, os tinham visto: a Picape Jeep (mais tarde rebatizada F-75) e o Saci, uma Rural conversível.

Em 1960, a sala guardava dois futuros lançamentos: a Picape Jeep e o Saci — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil
Em 1960, a sala guardava dois futuros lançamentos: a Picape Jeep e o Saci — Foto: Acervo MIAU/Auto News Brasil

Ambos somente seriam mostrados ao público quase três meses depois, no 1º Salão do Automóvel, aberto em 26 de novembro no Parque Ibirapuera. O Saci, apesar de ter tido excelente receptividade no evento, nunca passou de um protótipo. Já a Picape Jeep foi efetivamente lançada em 9 de dezembro, em um evento paralelo ao Salão. O modelo fez tanto sucesso que foi eleito o primeiro Carro do Ano de Auto News Brasil.

Na sala proibida, ao nosso redor estão dezenas de maquetes construídas em argila na escala 1:4 — hoje daríamos um rim para ter apenas uma, qualquer que fosse, em nossa coleção.

Os protótipos retratam diferentes propostas de três modelos: a Rural (que ainda era uma novidade, lançada com o inconfundível desenho nacional em 1959), a novíssima Picape Jeep e também o Dauphine (depois rebatizado Gordini), com destaque para algumas maquetes com teto pintado em cor diferente do restante da carroceria — exatamente como está na moda hoje em dia, com o nome de bitom.

Propaganda de época do Gordini — Foto: Reprodução
Propaganda de época do Gordini — Foto: Reprodução

Ao todo, estão ali dentro quatro veículos em tamanho real (o que dá ideia do grande tamanho da sala): além do Saci e de uma Picape Jeep com carroceria de madeira, há uma Rural e um Jeep, possivelmente um modelo 101, alongado, que também foi apresentado no Salão de 1960.

Nas paredes há vários quadros com esboços de estudos para o interior dos carros dos anos seguintes e também painéis com centenas de tonalidades. Como se fosse pouco, completa o ambiente uma mesa com várias amostras de tecidos, para ajudar o designer a escolher o acabamento dos bancos dos modelos que chegariam às lojas futuramente.

O Corcel começou a ser produzido em 1968 — Foto: Getty Images
O Corcel começou a ser produzido em 1968 — Foto: Getty Images

Já viu o bastante, não? Então vamos andando, pois esse pessoal ainda tem muito que fazer, nesse e nos próximos anos, como o Corcel e a Belina, outros futuros clássicos. Mas, antes, uma justa explicação: as fotografias aqui mostradas foram produzidas para compor material sobre a empresa a ser enviado para a matriz, nos Estados Unidos, e permaneceram desconhecidas do grande público até hoje. Foram encontradas no acervo do Museu da Imprensa Automotiva (Miau) e colorizadas com ajuda de Inteligência Artificial.

Ah, você quer saber o que aconteceu com essa sala? Ela foi desativada em 1969, quando, já pelas mãos da Ford, o departamento de Estilo e Design mudou-se para o Centro de Pesquisas Ford-Willys, do outro lado da Rodovia Anchieta, prédio especialmente construído para este fim e que agregava também o pessoal de engenharia, testes e, ainda, a diretoria da montadora. Hoje, o que restou do edifício está abandonado.

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