Teste: Toyota Etios Sedã X Plus, ainda vale a pena comprar?
Ele já tem oito anos no mercado, sente a força da idade e a própria concorrência interna com o Yaris. Aqui a gente conta o que há além do porta-malas gigante e da mecânica robusta
Por Ulisses Cavalcante
Ainda que não tenham sido ótimos, o Toyota Etios Sedã já viveu dias melhores. No Brasil, o fabricante não foi bacana com ele em dois momentos: primeiro por ter trazido para cá um modelo de outro mercado, sem fazer adaptações importantes. Depois, por submetê-lo à concorrência interna com o Yaris.
O Etios foi desenvolvido para rodar na Índia – não por menos foi apresentado lá no Salão de Nova Délhi, em 2010. Apesar da mecânica confiável (e simples), o design apresentava à época traços que agradavam àquele país. Por conta do sucesso do modelo, a Toyota entendeu que seria uma alternativa para comercialização também no Brasil.
Faltou só combinar com os brasileiros para aceitarem um visual que não conversava com a escola nacional. Naquele contexto, a Hyundai fez o oposto: desenvolveu um HB20 específico para o Brasil, estudando as preferências locais antes de lançar seu primeiro compacto por aqui. O resto é história – e lá se foram oito anos.
Hoje, o Yaris (nas versões hatch e sedã) pode ser encarado como seu substituto natural. O Etios está no final de seu ciclo de vida e não haverá uma nova geração – essa informação não é confirmada pela montadora. Porém, o Etios sairá de linha na Índia em abril (de 2020), sendo substituído justamente por uma configuração local do Yaris.
Outro indício de que a vida está prestes a acabar é que a Toyota descontinuou o uso da plataforma NBC (que já tem 21 anos), específica para carros básicos compactos – todos equipados com tração dianteira e suspensão de eixo de torção na traseira. A base B, sua sucessora, é do tipo modular e garante uma maior gama de produtos e até mesmo a adoção de tração integral.
A mecânica robusta compensa parte dos problemas de estilo. O motor 1.5 16V flex de 107 cavalos está adequado ao tamanho (e peso) da carroceria, e não desaponta mesmo quando o sedã está carregado.
Trabalha em sintonia com um câmbio automático de quatro marchas que também não desaponta, apesar de essa configuração não ser mais a referência do segmento.
Os números de teste da Auto News Brasil confirmam essa impressão. A arrancada de zero a 100 km/h é cumprida em 11,9 segundos. Parece uma eternidade diante dos números obtidos pelos concorrentes turbinados, entretanto, o Etios 1.5 não fica distante de concorrentes atuais. Um bom exemplo é o Volkswagen Virtus 1.6 automático, que faz o mesmo em 11,5 s mesmo com uma caixa de seis velocidades.
A limitação das quatro velocidades não prejudica tanto as retomadas. A recuperação de 60 a 100 km/h leva 6,4 s, cerca de um segundo de diferença em relação à maioria dos rivais equipados com motores turbo e transmissões automáticas de seis marchas.
Em vez de engates sequenciais, o Etios oferece bloqueio de relações (2) e L (na qual a transmissão não sai de primeira marcha). Essa caixa é notável pela sua durabilidade e baixo custo de manutenção, apesar de não ser a referência do segmento em agilidade.
Dentro da Toyota, o próprio Yaris combina esse propulsor com uma caixa automática mais moderna, do tipo CVT (de relações variáveis) e sete posições simuladas. O Chevrolet Cobalt utiliza uma caixa de seis marchas com opção de trocas manuais.
Mudanças todos os anos
Por aqui desde setembro de 2012, o compacto Etios passou por uma reestilização em 2017, mas todos os anos, desde a linha 2013, recebe pequenas melhorias para amenizar o fiasco inicial.
Novo painel, novo volante, mais equipamentos, nova central multimídia, novas versões... a Toyota tentou várias soluções até chegar na linha 2020 – que, aliás, é a primeira que não sofre nenhuma modificação em relação ao ano anterior (olha mais um indício de que o fim está próximo).
Desde 2017 o modelo conta com um quadro de instrumentos digital, em substituição ao antiquado (e analógico) mostrador no centro do painel – posição que jamais pôde ser corrigida.
No interior, os assentos têm espuma de baixa densidade. Ou seja, são extremamente macios. A direção tem ajuste de altura e ambas as versões X e X Plus contam com espelhos retrovisores elétricos, mas só a mais cara conta com repetidores de setas no corpo plástico.
Na parte interna há poucos diferenciais entre as configurações. Não há sequer uma central multimídia. O som é um sistema simples, com tela digital monocromática. Não há comandos touchscreen. Conta com entrada USB, auxiliar e Bluetooth. É possível usar comandos do volante que, aliás, é o mesmo da geração anterior do Corolla.
Há uma confusão visual de texturas de material plástico – cinco no total – o que pode ser observado no painel e forração de portas. Até os parafusos das peças ficam à mostra. A estética ofensiva se resume ao olhar, pois a qualidade do material é convincente, bem como a qualidade dos encaixes.
Para carros utilizados comercialmente, como os usados em aplicativos ou em frotas, isso é uma vantagem expressiva.
O ar-condicionado é competentíssimo. No calor, cerca de 29 graus, e trânsito pesado, o compressor deu conta de manter o interior agradável. As saídas circulares são eficientes para redirecionar o fluxo e, como bônus, há uma saída para refrigerar o interior do porta-luvas.
De fábrica, as portas não têm travamento automático. O motorista precisa se lembrar de trancar por meio do botão à esquerda do painel.
O porta-malas é o grande diferencial: são 562 litros, também uma referência de espaço abaixo de R$ 70.000. O Chevrolet Cobalt, maior da categoria, tem 563 l, ou seja, são praticamente idênticos. Porém, a intrusão das dobradiças do tipo “pescoço de ganso” são menos proeminentes no Toyota.
No banco traseiro, o destaque também vai para o espaço, mérito de seus 2,55 metros de entre-eixos. Apesar de ser considerado um compacto, o sedã tem 4,36 m de comprimento.
O Etios Sedã é oferecido em quatro configurações, duas com câmbio manual, e duas automáticas. Nas fotos você vê o Etios Sedã 2019 (igual ao 2020) X Plus A/T, sugerido por R$ 66.890 (não há opcionais).
São R$ 4.900 a mais que o Etios Sedã X A/T (R$ 61.990), diferença justificada pelo aparelho de som, acabamento preto na coluna central, piscas integrados nos retrovisores, rodas de liga leve de 15 polegadas (o X utiliza rodas de aço de 14 pol com calotas), e terceira luz de freio (brake light).
Todas as versões têm controle de tração e de estabilidade, bem como assistente de partida em subida. Nas versões manuais, o Etios Sedã parte de R$ 56.690 (X) e R$ 61.590 (X Plus).
São valores substancialmente mais elevados que os do Yaris, que sofre para justificar preços igualmente altos (R$ 69.990 e R$ 86.990). Porém, na percepção dos compradores brasileiros, o desempenho de mercado sugere que estamos levando mais Yaris para casa do que Etios.
Em 2019, foram vendidos 29.759 unidades do Yaris Sedã – foi o 25º mais vendido do mercado -, ante apenas 13.305 Etios Sedã. Entre os hatches, o Yaris também ficou na frente do primo indo-brasileiro.
O Cobalt, o rival da GM que também está prestes a se aposentar, teve 13.103 unidades comercializadas. Em outras palavras, esses veteranos vão abrir caminho para uma nova geração de sedãs compactos-médios. Na Honda, o City também está envelhecido, mesma situação do Nissan Versa. Porém, esses dois últimos ganharão novas gerações em breve, diferentemente do Etios.
Ficha Técnica - Etios Sedã X Plus 1.5 A/T
Motor
Dianteiro, transversal, 4 cil. em linha, 1.5, 16V, comando duplo, injeção eletrônica, flex
Potência
107/102 cv a 5.600 rpm
Torque
14,7/14,3 kgfm a 4.000 rpm
Câmbio
Automático de 4 marchas, tração dianteira
Direção
Elétrica
Suspensão
Indep. McPherson (diant.) e eixo de torção (tras.)
Freios
Discos ventilados (diant.) e tambores (tras.)
Pneus
185/60 R15
Dimensões
Compr.: 4,37 m
Largura: 1,70 m
Altura: 1,50 m
Entre-eixos: 2,55 m
Tanque
45 litros
Porta-malas
562 litros (fabricante)
Peso
1.019 kg
Central multimídia
Não tem
Garantia
3 anos
Consumo
Urbano
8,5 km/l (etanol)
12,5 (gasolina)
Rodoviário
10,3 km/l (etanol)
15 km/l (gasolina)









