Teste: Fiat Cronos HGT é um sedã esportivo apenas para os olhos
Principal novidade da linha 2020, versão é marcada pelo visual arrojado, mas não provocará suspiros ao volante. Faltam motores turbo
Por Diogo de Oliveira
Ser ou não ser, eis a questão! Guardadas as proporções, a dúvida existencial do príncipe Hamlet, famoso personagem de Shakespeare, serve perfeitamente ao Fiat Cronos HGT. Principal novidade da linha 2020 (veja os preços), a versão apela ao visual esportivo sem oferecer mecânica à altura. É a velha receita dos esportivados, que faz modelos de baixa performance parecerem “ases do asfalto”.
Cronos 1.3 MT — R$ 58.990
Cronos Drive 1.3 MT — R$ 61.990
Cronos Drive 1.3 GSR — R$ 66.690
Cronos Drive 1.8 AT — R$ 69.990
Cronos Precision 1.8 AT — R$ 75.490
Cronos HGT 1.8 AT6 — R$ 78.490
Teste: Fiat Cronos HGT é um sedã esportivo apenas para os olhos
No caso do Cronos HGT, o estilo ficou até mais insinuante que no Argo homônimo. Talvez um efeito do aerofólio preto brilhante que fica destacado na ponta da tampa do porta-malas. A peça é puramente estética, mas faz um efeito bacana na traseira.
O mesmo pode se dizer das molduras em black piano na dianteira, dos emblemas de fundo preto da Fiat, do teto preto e das belas rodas pretas de 17 polegadas, que calçam pneus Pirelli Cinturato de perfil baixo (205/45). Visualmente, o sedã parece "envenenado".
Entretanto, em nossos testes de pista o Cronos HGT comprovou que tudo não passa de maquiagem. A aceleração de zero a 100 km/h feita em longos 11,4 segundos é a prova cabal. Diferente do Argo HGT, que traz um ajuste mais firme da direção e da suspensão, a versão esportiva do sedã não recebeu qualquer modificação.
A Fiat justifica que nada foi alterado porque se trata de um modelo destinado à famílias. Por isso, o conforto é o que realmente importa — e o porta-malas de 525 litros.
Mas a verdade é que falta um tempero mecânico. O problema é que a Fiat ainda não tem as especiarias na prateleira para condimentar seus carros. A montadora anunciou um grande investimento na fábrica de Betim (MG) para produzir motores turbo da família Firefly.
Porém, a previsão é de que o 1.0 tricilíndrico e 1.3 de quatro cilindros sejam turbinados só no início de 2021. Ou seja, ainda vai demorar um bocado. Até lá, caberá ao Cronos HGT a missão de vender esportividade na linha.
A versão é baseada na Precision, que agora passa a vir sempre com o câmbio automático de seis marchas. A transmissão é acoplada ao 1.8 flex Etorq, velho conhecido dos brasileiros. O motor até rende, mas é insuficiente para entregar uma tocada engajante. São 139 cv de potência a 5.750 rpm e 19,3 kgfm livres a 3.750 rotações.
O problema é entrada tardia do torque. O VW Virtus, por exemplo, dispõe dos 20,4 kgfm de torque do motor 1.0 TSI logo a 2.000 rotações.
Essa entrega antecipada do torque ajuda nas acelerações e sobretudo nas retomadas. O Virtus 1.0 turbo fez o mesmo 0-100 km/h em 10 segundos, e precisou de 5,5 segundos para recuperar de 60 km/h a 100 km/h — foi um segundo mais ligeiro que o Cronos 1.8 aspirado, que cravou 6,5 segundos na prova.
O sedã da marca italiana também decepcionou nas frenagens. Para estancar a 80 km/h, percorreu 27,8 metros ante 24,5 metros do Virtus e 25,4 metros do Chevrolet Cobalt.
Os números definitivamente não ajudam o Cronos HGT a comprovar sua virilidade. Mas há alguns predicados no sedã que certamente irão ajudá-lo a se sobressair. O estilo é um deles. Pode não andar como um esportivo, mas o visual ficou provocante por fora e por dentro.
A cabine é basicamente a mesma do Precision, mas com forração preta no teto, o que já dá outro clima a bordo. Os bancos e o volante são forrados em couro, e novamente os emblemas da Fiat trocam o vermelho pelo preto.
Dinamicamente, o sedã tem um ajuste agradável de suspensão, que lhe dá equilíbrio. Os pneus mais largos e baixos ajudam a ganhar aderência e não comprometem o conforto. No geral, o Cronos é macio e apresenta um rolamento controlado nas curvas.
A estrutura mais firme (que traz aços de alta-ultra resistência) copia bem os movimentos do volante e transmite ótima precisão. Contudo, sem apresentar qualquer preparação, o Cronos HGT é igual ao Precision, só está produzido.
Teste: Fiat Cronos HGT é um sedã esportivo apenas para os olhos
Ao volante, o motorista mais empolgado se decepcionará com as respostas do acelerador. O câmbio automático de seis marchas faz trocas rápidas, mas não serve ao propósito de extrair desempenho. As mudanças são feitas em regimes mais amenos, talvez para ajudar no consumo, que não é dos melhores (média mista de 8,4 km/l pelo Inmetro).
E se o condutor afundar o pedal do acelerador, o Cronos não sairá em disparada. Sua aceleração é progressiva e favorece o conforto.
Não há sequer o famoso modo Sport para fazer o conjunto render mais. Um alento são as borboletas no volante, que ajudam quando se busca uma tocada mais forte. O ponto alto do Cronos HGT é o pacote. Há bastante conteúdo na versão, que passa a ser a mais cara.
A lista é farta e traz itens desejados, como ar-condicionado automático digital, tela multimídia de sete polegadas com Android Auto e Carplay, monitor de pressão dos pneus e os controles eletrônicos de estabilidade e de tração.
Porém, há opcionais importantes, algo costumeiro na gama Fiat. O teto bicolor é cobrado à parte, assim como a chave presencial, os retrovisores externos com rebatimento elétrico, os sensores de chuva e de luz, o retrovisor interno eletrocrômico e os airbags laterais.
Completo, o Cronos HGT sobe de R$ 78.490 (preço sugerido) para salgados R$ 85.690. É bastante dinheiro por um sedã que só parece esportivo. Parece que a receita só ficará boa quando chegarem os temperos que estão faltando.
TESTE
Aceleração
0-100 km/h: 11,4 segundos
0-400 m: 17,8 segundos
0-1.000 m: 32,5 segundos
Velocidade a 1.000 metros: 162,1 km/h
Velocidade real a 100 km/h: 96 km/h
Retomada
40-80 km/h (Drive): 5,1 segundos
60-100 km/h (D): 6,5 segundos
80-120 km/h (D): 8 segundos
Frenagem
100-0 km/h: 42,4 metros
80-0 km/h: 27,8 metros
60-0 km/h: 16,5 metros
Consumo*
Urbano: 7,2 km/l
Rodoviário: 9,6 km/l
Média: 8,4 km/l
Autonomia. na estrada: 403,2 km
*Dados do Programa de Etiquetagem Veicular do Inmetro.
FICHA TÉCNICA
Motor
Dianteiro, transversal, 4 cil. em linha, 1.8, 16V, comando simples, injeção eletrônica, flex
Potência
139/135 cv a 5.750 rpm
Torque
19,3/18,8 kgfm a 3.750 rpm
Câmbio
Automático de seis marchas, tração dianteira
Direção
Elétrica
Suspensão
Indep. McPherson (diant.) e eixo de torção (tras.)
Freios
Discos ventilados (diant.) e tambores (tras.)
Rodas e Pneus
225/45 R17
Dimensões
Comprimento: 4,36 m
Largura: 1,72 m
Altura: 1,51 m
Entre-eixos: 2,52 m
Tanque de combustível
48 litros
Porta-malas
525 litros
Peso
1.271 kg
Garantia
3 anos
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