O encontro do maior e do menor carro do Brasil na década de 1980

Os anos 1980 representam tudo o que há de diferente no mercado automotivo nacional em razão da proibição das importações

Por Marcos Rozen


Nem dois Dacon 828 perfilados chegavam perto do tamanho da limusine de Lilian Gonçalves Arquivo pessoal/Acervo MIAU

Os anos 1980 representam tudo o que há de diferente no mercado automotivo nacional. Em razão da proibição das importações pelo regime militar, já então em vigor havia alguns anos, e por termos apenas quatro marcas produzindo no Brasil, quem queria se destacar nas ruas (e podia pagar por isso) apelava para os fora de série locais. E aí havia de tudo um pouco: era um misto de criatividade com esquisitice e de ousadia com cafonice.

A representação perfeita desse momento único na nossa indústria automotiva está registrado em uma reportagem encontrada no acervo do Museu da Imprensa Automotiva, o Miau, publicada na revista Manchete de 7 de dezembro de 1985.

Nem dois Dacon 828 perfilados chegavam perto do tamanho da limusine de Lilian Gonçalves — Foto: Arquivo pessoal/Acervo MIAU

Colunista da revista na época, o jornalista especializado Fernando Calmon (que anos depois viria a ser editor e colunista de Auto News Brasil) soube de uma limusine, uma das primeiras montadas aqui, de propriedade de Lilian Gonçalves, conhecida como A Rainha da Noite Paulistana (título que recebeu da extinta revista Visão) por possuir e administrar várias casas noturnas e restaurantes na cidade.

Filha de Nelson Gonçalves, estava se lançando como cantora, e nada melhor que um carro chamativo, bem ao estilo popstar, para aumentar a repercussão da recém-iniciada carreira.

Lilian, então, chegava aos shows com sua limusine Landau branco-pérola de fenomenais 6,4 metros de comprimento. Na reportagem, os construtores do veículo, Ludjero Ventura e Marcos Gianello, da Max Golden Car, explicaram que foram usados dois Landaus para fabricar a limusine — que recebeu nada menos do que 28 mãos de tinta. A conversão custou, na época, Cr$ 130 milhões, algo como R$ 200 mil em valores atuais.

Em entrevista concedida no mês passado a esta coluna, Lilian recorda que “todo mundo queria ver a limusine, tirar foto e andar nela”. A estratégia de chegar com o carro aos shows deu tão certo que outros artistas passaram a pedir o carro emprestado para fazer o mesmo, revela a empresária — que ainda hoje atua no ramo de restaurantes em São Paulo. “Muita, mas muita gente famosa andou naquela limusine”, assegura.

A limusine Landau branco-pérola tinha fenomenais 6,4 metros de comprimento — Foto: Arquivo pessoal/Acervo MIAU

Como na época o carro de Lilian era considerado o maior do Brasil (ou mais comprido), Calmon teve uma ideia para sua matéria: compará-lo com o então menor carro nacional, igualmente um fora de série, o Dacon 828 (também conhecido como Mini-Dacon).

Calmon, entrevistado agora por esta coluna, relembrou: “Pedi um 828 emprestado ao Anísio Campos (projetista do carro), que conseguiu uma unidade com a própria Dacon (fabricante do modelo)” — por isso o veículo ostenta inclusive placas azuis nas fotos originais, atualmente desgastadas pelo passar dos anos.

A diferença era absurda: como o 828 tinha só 2,65 m de comprimento, nem mesmo dois deles perfilados chegavam perto do tamanho total da limusine. O carrinho equivalia somente à distância da porta dianteira à traseira do Landau de Lilian.

Lilian Gonçalves, era conhecida como A Rainha da Noite Paulistana — Foto: Arquivo pessoal/Acervo MIAU

A empresária-cantora, naturalmente, participou do ensaio fotográfico com os dois carros em 1985, tendo o Obelisco do Parque Ibirapuera, em São Paulo, como cenário forçado. “Queríamos parar os carros em cima da grama do parque, mas não deixaram.” A reportagem original cita que “os dois carros andando juntos nas avenidas de São Paulo confundiam motoristas e pedestres”. Ora, não era para menos (nem para mais)...

Lilian conta que manteve a limusine por muitos anos. Mas, certa vez, o carro pegou fogo e sua recuperação foi considerada inviável. “Uma pena”, lamenta. Seu gosto por veículos clássicos extravagantes nunca arrefeceu: hoje ela tem outro V8, um Jaguar S-Type ano 2006, de “apenas” 4,90 m.

Do 828 das fotos não se tem notícia: só se sabe que foi um dos menos de cem fabricados na época, aqueles curiosos tempos de mínimos e máximos do mercado brasileiro de meados dos anos 1980...

*Marcos Rozen é fundador do Museu da Imprensa Automotiva – Miau

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