Teste: Honda Africa Twin
Porte da moto assusta, mas a Honda Africa Twin é mais fácil de pilotar do que parece
Por Roberto Dutra; de O 3PWEB
Para quem não sabe, vale a explicação: a Honda Africa Twin que vemos hoje no Brasil é a terceira encarnação do modelo. A primeira, de 1988, tinha motor de 650 cm³ e viveu apenas dois anos; e a segunda surgiu em 1990, com motor de 750 cm³ (saiu de linha em 2003). A atual foi mostrada como protótipo no Salão de Milão de 2014, chegou ao mercado europeu em 2015 e, aqui, no ano passado.
O nome oficial é CRF 1.000 Africa Twin e o que era uma trail média virou uma big trail. A versão Standard tem preço de R$ 54.900 e pode chegar a R$ 64.400 na Travel Edition.
Surpresa na cidade
Nosso primeiro contato foi entre Botafogo e o Centro e trouxe uma surpresa: esguia e alta, a moto parecia bem menor, transitando com relativa facilidade pelos corredores — só era preciso monitorar os dois baús laterais, já que pegamos a completa versão Travel Edition. Sem eles, é quase uma perereca do dia a dia: o peso a seco é de inacreditáveis 212 kg. Na cidade, o motorzão bicilíndrico só exige estar sempre cheio, para evitar soluços.
Já na garagem do jornal, a Africa Twin impressionou a todos pela altura. Ilusão de ótica: pode parecer difícil de acreditar mas, com meus 1,70 m, botei os dois pés totalmente no chão sem dificuldade (com o banco ajustável na posição mais baixa, a 85 cm de altura). Outra explicação é que a moto é magrinha: assim, não é preciso arquear as pernas.
Arrumar a bagagem é moleza: os três compartimentos levam mais de 50 litros. Antes de partir para a estrada, apanhei um pouco para me entender com os comandos do painel. São três fileiras mostrando informações como temperatura ambiente, consumo e velocidade médios, ajuste do controle de tração etc. É preciso selecionar a “janelinha”, depois ir mudando a informação ali.
Garupa acomodada e partimos para um roteiro Rio-Lumiar-Rio, subindo por Nova Friburgo e voltando pela BR101. Na Ponte, sofremos: alta e “fechada” com sua semi-carenagem, baús e afins, a moto parece uma vela e mostra grande resistência ao vento lateral. Veio o trecho de Manilha e foi preciso cuidado redobrado com os radares: é o tipo de moto que sempre está em velocidade maior do que parece.
Sobram virtudes: excelente posição de pilotagem, para-brisa muito eficiente (que, no entanto, deveria ser uns dois dedos mais baixo, para que se possa enxergar por cima dele), guidom correto, banco muito confortável, ergonomia bacana e comandos bem à mão.
O painel é bem de big trail aventureira: triangular, com instrumentos dispostos simetricamente e com letras e números grandes. A garupa elogiou muito a anatomia e a espuma macia do banco, e também a altura das pedaleiras (embora pequenas e finas), mas criticou o encosto de borracha instalado no baú — feito de plástico duro e pobre.
Com entre-eixo curto para seu tamanho, a Africa Twin surfou nas curvas da subida da serra. Mas, devido à altura, inclina-se muito para fazer as trajetórias.
O motor de 999 cm³ não chega a impressionar. Tem 90,2 cv de potência e 9,3 kgfm de torque. Vai melhor em giros altos e o segredo aqui é cambiar bastante, para mantê-lo sempre cheio. Mas faltam “pegada”, diversão e emoção — como muitas Honda, essa aqui é bela, recatada e do lar, e não uma italiana da pá virada (a Ducati Multistrada rende 152 cv e 13,3 kgfm).
A embreagem é muito macia e o câmbio, preciso. Fiquei pensando como seria o casamento desse bicilíndrico pesado (diâmetro de 92mm por curso de 75,1mm) com o câmbio automatizado das VFR 1.200, opção que existe nas Africa Twin lá fora.
O controle de tração, que tem três ajustes e pode ser desligado, garantiu trajetórias bem feitas e absolutamente sem sustos. Mas tive que tomar cuidado com o freio dianteiro: a pegada é muitíssimo forte, então é preciso dosá-lo na sintonia fina até nas manobras. Sem o ABS (que é desligável), a chance de “chão” é grande.
É para o asfalto
Voltamos de Lumiar já no lusco-fusco e, nessa hora, o painel se refletiu no para-brisa de maneira incômoda. Veio a noite e os faróis com LEDs iluminaram longe.
Percorridos 270 km, restava um tracinho no marcador de gasolina (além da reserva). Preferi não arriscar. A média de consumo de 19,5 km/l foi razoável para uma bicilíndrica grandona — e aponta para uma coerente autonomia de cerca de 360 km com o tanque de 18,8 litros.
Nas retas da BR101, a Africa Twin abriu caminho e impôs respeito, mostrando que aquele é o seu habitat: assim como as rivais, até tem lá suas possibilidades off-road (a altura livre do solo é de 25 cm!), mas seu lugar é no asfalto — como indicam seus pneus.
Ficha técnica
HONDA CRF 1.000 Africa Twin
Preço
R$ 54.900 / R$ 64.400
Origem
Japão / Brasil
Motor
Gasolina, dois cilindros, 999 cm³
Potência
90 cv a 7.500 rpm
Torque
9,3 kgfm a 6.000 rpm
Transmissão
Câmbio de seis marchas. Secundária por corrente
Suspensões
Garfos de alumínio na frente e monochoque atrás
Freios
A disco, com ABS
Pneus
90/90 R21 na frente e 150/70 R18 atrás
Dimensões
Compr.: 2,33 m
Altura: 1,47 m
Entre-eixos: 1,57 m
Peso
212 kg
Consumo
19,5km/l na estrada (Medição CarroEtc)