Rural Willys 1960 foi protagonista do primeiro teste automotivo no Brasil

Primeiro teste automotivo feito pela imprensa brasileira, há 65 anos, mesclou ingenuidade com genialidade

Por
Marcos Rozen


Rural Willys 1960 Divulgação/Acervo MIAU

O primeiro teste automotivo feito no Brasil — ou seja, quando um veículo de comunicação mediu índices como consumo, aceleração e velocidade máxima — foi publicado na edição de 5 de dezembro de 1959 do jornal O 3PWEB, que acaba de completar 100 anos. A façanha foi da coluna Automóveis e Aviões, do então jornalista e depois publicitário Mauro Salles.

A escolha do modelo foi quase óbvia: a Rural Willys 1960, que não só acabava de ganhar desenho renovado, exclusivamente nacional, como era o veículo com maior índice de peças brasileiras em produção.

Rural Willys 1960 foi protagonista do primeiro teste de veículos no Brasil — Foto: Divulgação/Acervo MIAU

Revisitar esse material é deliciar-se com uma mistura de ingenuidade e genialidade, e ter a certeza de que os pioneiros podiam até não saber exatamente o que estavam fazendo, mas sabiam que era preciso, de alguma forma, fazê-lo. Cabe recordar dificuldades.

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A primeira era o espaço disponível: apenas meia página, onde Salles milagrosamente encaixou texto, fotos, resultados dos testes e ficha técnica. A seguinte era a inexistência do hábito de fabricantes cederem veículos para testes. Determinado, o escriba conseguiu uma unidade emprestada pela concessionária Gastal.

O texto publicado está mais para crônica do que reportagem, o que torna a leitura ainda mais saborosa. Para quem esperava bajulação, Salles não poupou a Rural de críticas. “O banco é duro e incômodo, como se tivesse sido projetado para carregar passageiros de 180 quilos ou sacos de cimento.”

O relato das características de uso é quase impagável. “A Rural Willys não é veloz, nem foi feita para isso. Mas, embora não se dê bem em um autódromo, não é de bancar a tartaruga na estrada.” E quanto à velocidade máxima? “Nos testes conseguimos levar o ponteiro do velocímetro até 120 km/h, o que satisfará a um ‘playboy’ menos exigente, cujo pai não tenha ainda a coragem de presenteá-lo com um MG [carro esporte inglês].”

Na época, não havia medição de zero a 100 km/h; a Rural levou quase 40 segundos para chegar a 120 km/h — Foto: Divulgação/Acervo MIAU

Salles, porém, alertava que “o ponteiro não corresponde à realidade, pois prevendo que os motoristas sempre se aventuram a ultrapassar as velocidades permitidas, os fabricantes ajustam os velocímetros para que deem leitura um pouco acima da real”. A equipe calculou margem de erro de até 11%.

No quesito aceleração, o deleite jornalístico prossegue. “Parado no sinal um motorista hábil, sabendo encaixar na hora uma segunda [o câmbio não era sincronizado], dificilmente fará papel feio na vaidosa disputa de uma arrancada. Mas a Rural não sairá com os pneus assobiando e riscando o asfalto como uma máquina de chamar atenção.” O zero a 100 km/h não era o padrão, então foram calculadas acelerações até 80 km/h e 120 km/h: 22,5 segundos e 39 s, respectivamente.

Velocímetro indicava velocidade acima da real, constatou o teste — Foto: Divulgação/Acervo MIAU

Na análise do design, veio a tacada definitiva. “Depois de todas as provas, quando a bonita grade da Rural 60 estava quase irreconhecível com tanta lama e areia, foi bastante um banho de mangueira de jardim para colocá-la em condições de participar de qualquer desfile de elegância em Copacabana.”

Por absoluta falta de espaço, poucas fotos foram publicadas naquela edição. Mas isso foi compensado meses depois, quando Salles reescreveu o teste para a edição de setembro de 1960 da revista Mecânica Popular (que, anos mais tarde, seria incorporada a Auto News Brasil). Ele acrescentou: “O fato de o motor trabalhar sempre em temperatura acima da média não deve ser motivo de espanto: é disso que ele gosta. Não conseguimos fazê-lo ferver, apesar de termos sinceramente tentado...”.

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