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Por Marcos Rozen


A Chevrolet Marajó em Mendoza, na Argentina, com os Andes ao fundo (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
A Chevrolet Marajó em Mendoza, na Argentina, com os Andes ao fundo (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte

Para muita gente férias perfeitas envolvem uma boa viagem de carro. Mas tem gente que exagera, e esse foi o caso de Fernando Freitas, Luiz Augusto Michelazzo e Carlos Kruger: esses três amigos decidiram em pleno 1981 aproveitar um período comum de férias de seus empregos para cair na estrada, mas fizeram roteiro um tantinho longo. Resolveram, apenas, ir do Brasil ao Canadá dirigindo.

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Além de pouco dinheiro e da esperança de contar com a ajuda de pessoas pelo caminho, nenhum dos três tinha qualquer conhecimento de mecânica, apesar de dois deles, à época, trabalharem na General Motors do Brasil – mas longe da engenharia e de áreas técnicas. Fernando trabalhava no RH e Luiz Augusto em relações públicas, enquanto Carlos estava na área de vendas da Lufthansa.

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A placa dava boas-vindas ao Chile – e as temperaturas abaixo de zero em pleno inverno (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
A placa dava boas-vindas ao Chile – e as temperaturas abaixo de zero em pleno inverno (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte

Mesmo assim decidiram partir para a aventura. O primeiro passo foi conseguir um carro com a própria GM e após muitos e insistentes pedidos chegou às mãos deles uma Marajó novinha, uma das novidades da Chevrolet. Acabava de ganhar motor 1.6 (lançada um ano antes, em 1980, a perua até então tinha apenas a opção do 1.4). Única preparação especial: instalação de faróis de milha. De resto, tudo ‘standard’ de fábrica.

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Assim o objetivo principal da viagem passou a ser chegar até a sede mundial da General Motors em Detroit, nos Estados Unidos. De lá bastariam poucos quilômetros para alcançar o Canadá e completar o roteiro original.

A Marajó e os três amigos cruzando o Deserto do Atacama (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
A Marajó e os três amigos cruzando o Deserto do Atacama (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte

Além de corajosos e destemidos os três amigos eram espertos e, por precaução, carregaram o bagageiro de teto da Marajó com várias peças de reposição: correias, velas, filtros, carburador, distribuidor, bomba de gasolina, amortecedores, pastilhas de freio e outros. Além disso no porta-malas havia equipamentos de camping. Em julho de 1981, sem injeção eletrônica, celulares, GPS nem grandes planejamentos, partiram.

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Para dificultar um pouco mais e tornar o ‘passeio’ ainda mais interessante decidiram não seguir direto para cima no mapa e em vez disso desceram em direção à Argentina. Foram de São Paulo até Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e de lá até Mendoza, encontrando os Andes em pleno inverno. Já que estavam por ali continuaram até o Chile e lá cruzaram o deserto do Atacama, onde de dia enfrentavam calor escaldante e, à noite, segundo Luiz Augusto, mais conhecido como Mic, “um frio de fazer pinguim bater o queixo”.

Assim chegaram ao Peru e depois ao Equador, onde começaram a sentir, os três e a Marajó, os efeitos da altitude. Na região andina da Colômbia “o motor não puxava e batia tanto pino que parecia um diesel”, recorda Mic. ”Nosso carburador extra foi regulado para essa região, mas ninguém sabia trocá-lo. Como a bichinha foi seguindo, mesmo bufando, decidimos continuar assim mesmo.”

No Peru, o aspecto desértico parecia até um cenário alienígena (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
No Peru, o aspecto desértico parecia até um cenário alienígena (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte

Em Bogotá foram à embaixada americana solicitar visto de entrada nos Estados Unidos – vocês não acharam que eles tinham pensado nisso antes, não é? O funcionário perguntou se eles estavam malucos. “Cruzar a América Central de carro? Não sabem que podem ser feitos reféns ou até mortos?” Era época de revoluções e guerrilhas por lá. “Respondemos, brincando, que mandaríamos um cartão postal do Canadá para ele”, recorda Mic. A papelada foi liberada por conta e risco.

Da Colômbia ao Panamá não havia estradas, e a Marajó, a essa altura já apelidada ‘Marajóia’, foi empacotada e embarcada em um Boeing 707 graças a amigos de Carlos, que trabalhava no setor aeronáutico. Do Panamá cruzaram, sem maiores problemas, Nicarágua, Honduras e El Salvador, apesar do medo e à exceção de uma ponte destruída pela guerrilha que obrigou os três a percorrer 80 quilômetros a mais que o previsto.

Da Colômbia para o Panamá o único jeito era por cima. E assim foi feito (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
Da Colômbia para o Panamá o único jeito era por cima. E assim foi feito (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte

De lá Guatemala, México e Estados Unidos, pela cidade de Laredo, no Texas. Continuaram rumo norte até finalmente alcançar Detroit, onde a Marajóia foi exposta no pátio da sede mundial da GM, para espanto e surpresa do pessoal da matriz. Alguns quilômetros a mais e finalmente Toronto, no Canadá. De lá os três voltaram até os Estados Unidos, seguindo para Nova York, de onde o carro foi embarcado para o Brasil por navio com 20.300 quilômetros no hodômetro, 44 dias depois.

Mic resume: “Tivemos sorte em vários momentos, sem nenhum problema grave seja de ordem burocrática, fronteiriça, política, pessoal ou mecânica, nem sequer um pneu furado. Enfim, aquilo com que a gente sempre sonha: umas férias diferentes e tranquilas.”

Na região central do México um vulcão se postava acima das nuvens: era o Popocatépetl (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
Na região central do México um vulcão se postava acima das nuvens: era o Popocatépetl (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte

Já a ‘Marajóia’ Mic encontrou por acaso, rodando na região do Grande ABC, alguns anos depois. Parou o motorista, que havia comprado o carro em uma loja de São Bernardo do Campo. Já foi logo dizendo “Rapaz, eu fui com essa Marajó até os Estados Unidos!” Para seu espanto o dono respondeu: “Sim, eu soube que esse carro foi rodando até lá, me contaram antes de vender. Ainda está novinha, você viu?” E seguiu seu caminho...

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A ‘Marajóia’ na sede mundial da GM em Detroit, nos Estados Unidos, impressionando o pessoal da matriz (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
A ‘Marajóia’ na sede mundial da GM em Detroit, nos Estados Unidos, impressionando o pessoal da matriz (Foto: Acervo MIAU) — Foto: Auto Esporte
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