Como Giugiaro salvou a Fiat Palio Weekend de ser uma perua feia
Famoso designer italiano deu palpites para a primeira geração do modelo, que poderia ter saído com uma traseira bem diferente da que conhecemos
Por Marcos Rozen
O dia 27 de janeiro foi o último de produção da Palio Weekend. Ao todo a perua compacta foi fabricada por mais de duas décadas, initerruptamente, na mesma unidade, em Betim, MG, ultrapassando a marca de meio milhão de unidades.
O momento é bem propício para contar os bastidores do nascimento da perua. Seu estilo foi alvo de muita discussão e várias propostas para seu desenho foram rejeitadas.
Primeiramente é importante lembrar que a Weekend foi fruto do projeto 178, uma família de veículos que teria também carrocerias hatch, o Palio, sedã, o Siena, picape, a Strada, e uma van, que só existiu no exterior.
Além disso, a gama 178 seria global: o projeto inicial previa produção de modelos no Brasil, Argentina, Venezuela, China, Turquia, Marrocos, Polônia, África do Sul e Índia, mas boa parte destes países ficaram pelo caminho com o passar dos anos.
De qualquer forma foi essa a missão que os designers da família 178 receberam, e não era nada simples: os modelos teriam que satisfazer o gosto dos consumidores de todos estes mercados e ainda outros de exportação, incluindo a Europa.
Ou seja: era uma tarefa bastante difícil, sendo que no Brasil ainda havia um elemento adicional, o de substituição da família Uno. Errar, portanto, não era uma opção.
A Weekend, que acabou por se tornar a mais longeva dos três automóveis em termos produtivos, começou a ser projetada em abril de 1993. Por ser uma proposta global da Fiat todo o trabalho de design foi desenvolvido na Itália. Mas o pessoal do chamado Centro Stile da Fiat em Turim e do estúdio I.DE.A, que haviam desenhado inicialmente o Palio, não conseguiam chegar a um resultado que agradasse para a perua da família. O prazo estava apertando e o Projeto 178, por ser global, não admitia atrasos.
Foi aí que entrou na história um terceiro estúdio de design, a Italdesign, de Giorgetto Giugiaro, a quem a fabricante pediu conselhos, quase que secretamente, para ajustar o estilo da Weekend.
Isso porque os primeiros esboços feitos pelo I.DE.A, já em computadores (um avanço na época) não agradaram nem um pouco. Foram pelo menos quatro opções apresentadas e nenhuma aprovada. As imagens fazem parte do acervo do MIAU, Museu da Imprensa Automotiva.
Em três delas as lanternas traseiras eram pequenas, o que conferia um certo ar tímido e frágil ao modelo, enquanto uma quarta trazia lanternas maiores porém um teto elevado na área de carga, deixando seu perfil um tanto desarmônico. Havia dúvidas também quanto à tampa do porta-malas, ora mais reta ora mais arredondada em cada proposta.
O dedo de Giugiaro era o que faltava. Depois de alguns meses uma nova proposta foi apresentada, com lanternas maiores, coluna C mais larga e inclinada e um toque de mestre: a tampa do porta-malas com abertura que invadia quase toda a área do para-choque, o que além de facilitar a entrada de objetos trouxe um estilo mais encorpado para a traseira.
O novo desenho foi transformado em um protótipo construído em argila, que ganhou um rack de teto não previsto no sketch original. O modelo finalmente agradou e então foi aprovado para produção. Isso aconteceu em setembro de 1994.
Houve ainda, porém, uma pequena alteração: o corte inferior da tampa do porta-malas, que era reto, foi suavizado, ganhando um pequeno ângulo inclinado e cantos arredondados. Com isso as linhas laterais sem pintura do para-choque, antes estreitas e retas, também foram anguladas e aumentadas, enquanto a base foi alongada até encontrar a linha da tampa.
Os bons palpites de Giugiaro, porém, não foram devidamente creditados. Publicamente a Fiat, repetindo o que havia ocorrido com o Palio, afirmou no lançamento da Weekend que apenas o Centro Stile e o Instituto I.DE.A foram os responsáveis por todo o desenho da perua.
O esforço do conhecido designer, entretanto, não foi ignorado. Como uma espécie de reconhecimento logo depois ele foi oficialmente contratado como responsável pela reestilização de toda família Palio, que estreou em 2000, e recebeu todos os louros por esse trabalho. Mas essa já é uma outra história...









