Teste rápido: Toyota Hilux é trabalhadora, mas daquelas que bebem em serviço
Picape flex tem bom desempenho em terrenos acidentados, só que seu consumo é descabido
Por Ulisses Cavalcante
São 6h da manhã e a caminhonete branca aí das fotos já está acordada. Motor ligado, vidros cobertos por uma fina névoa e terra molhada sob os pneus. Lá vai ela rumo ao cafezal de Itamogi, no sul de Minas. Enfrenta uma Rodovia do Café encharcada e escorregadia pela lama que invade o asfalto, vinda dos terrenos à beira da estrada, vítimas de lixiviação. Mas ela nem se abala. Para a Toyota Hilux SRV 4x4 Flex, é só uma terça-feira qualquer.
Para mim, que estou atrás do volante, a única preocupação é quanto ao ponteiro de combustível. O que essa versão flexível tem de valentia, tem de sede. Como bebe! Os 80 litros do tanque secam mais rápido do que solo revolvido em excesso.
Antes de continuar, vale um adendo: a Toyota não oferece mais o beberrão motor flex na linha 2022 da picape – agora restam apenas as opções diesel.
Consumo é descabido
Como dizem os mineiros: “Tem base não!”. Na tradução, é um consumo descabido. Com 100% de etanol, marcamos 3,8 km/l no trânsito de São Paulo, 4,1 km/l em cidadezinha rural e 7,2 km/l na rodovia.
Com gasolina a situação não fica distante: 5 km/l na cidade e 8 km/l na estrada. Pegando leve no acelerador, entre 85 e 100 km/h, e com o ar-condicionado desligado, deu para esticar a 9 km/l. Todas as medidas foram feitas com a caçamba vazia.
Esses cálculos de consumo são fundamentais para orientar a escolha entre as versões flex e diesel. A Hilux SRV 4x4 Flex custa R$ 215.690, ante R$ 262.190 de sua equivalente a diesel — R$ 46.500 extras. Considerando a média dos preços de combustíveis em São Paulo, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a amortização desse valor adicional só ocorreria após rodar cerca de 72 mil km, contemplando apenas uso rodoviário.
Em outras palavras, a flex custa menos, porém tem o custo do quilômetro rodado bem mais caro que o da versão diesel (quase o dobro). Por fim, outro dissabor do combustível vegetal é a (falta de) autonomia: são 576 km na estrada, já a Hilux diesel passa dos 1.000 km com um tanque. Na cidade, cai para 328 km, no máximo, levando em conta a reserva. Seus parentes e amigos vão invejar a frequência com que você visita o posto e ignora a existência dos entes queridos.
Deixando a calculadora de lado, conforto não é um problema. Os materiais são de boa qualidade, bem encaixados, e as superfícies são muito fáceis de limpar. Ergonomia também é um ponto alto. Tem banco do motorista com regulagem elétrica (altura, distância longitudinal e encosto) e coluna de direção com ajuste de altura e profundidade.
O restante da lista de acessórios não vai além do trivial para um veículo que ultrapassa os R$ 200 mil. Tem controle de velocidade de cruzeiro, ar-condicionado com interface digital, botões no volante, um simpático relógio no topo do painel e uma boa oferta de nichos para guardar objetos.
O que ela tem e o que falta
Já o sistema multimídia deixa a desejar. É meio complicado para sincronizar com o celular e tem interface antiquada. A ré trabalha em conjunto com uma câmera de resolução baixa e definição sofrível.
Em lugares pouco iluminados, a visão dos arredores fica comprometida. Como estamos falando de uma versão intermediária-top, senti falta de sensores de estacionamento na dianteira e de alertas de ponto cego. De “moderno” mesmo — e não esqueça das aspas na palavra —, só a chave presencial e o botão de partida.
A falta de tecnologia eletrônica limita alguns mecanismos que poderiam até mesmo favorecer o consumo, como o start-stop e monitores para sugestão de economia. O botão Eco, cá entre nós, não ajudou em nada.
Por outro lado, o motor 2.7 de 163 cv a 5.000 rpm não brinca em serviço em terrenos ruins. É manso na estrada, por isso sugiro ficar atento em ultrapassagens apertadas. O forte dele não está nas retomadas — como o diesel. Porém, sobra torque (25 kgfm) para rodar por cafezais e rincões frequentados por fuscas. No dia das fotos choveu forte.
O chão de terra batida estava castigado pela passagem de tratores. A tração no eixo traseiro fez a caçamba andar meio de lado, mas não pediu auxílio do 4x4 (acionado por meio de um botão no painel). Só precisei de 4x4 uma vez, quando parei numa ladeira escorregadia e precisei recuar. A suspensão de braços sobrepostos e eixo rígido na traseira e os pneus de uso misto estão impecavelmente calibrados. Só recomendo desligar o ESC em piso de terra molhado.
Na caçamba, a capacidade de carga é a mesma que a da Chevrolet S10: 815 kg, contra 816 kg da picape com gravatinha dourada. A Hilux poderia dispor de um sistema de molas para conter o peso da tampa.
Também senti falta de pontos de ancoragem — são apenas quatro, nas extremidades do compartimento. Já o indispensável protetor de caçamba vem de série, bem como os estribos na cor preta e o jogo de para-barros na frente e na traseira.
Quanto ao visual, a receita de estilo também equivale à da rival da GM. Para-choques robustos e com acabamento cromado, uma capa brilhante no contorno da grade do radiador e nos retrovisores externos.
Apesar de ser mais enxuta na lista de equipamentos, a Hilux tem fama de ser a mais robusta do segmento, além de ir bem na revenda. Para quem quer maciez de rodagem e mais acessórios, a S10 LTZ 2.5 sai por R$ 217.900. E há alternativas com motor diesel, como a Ford Ranger XLS 2.2 (R$ 233.690) e até a Volkswagen Amarok Comfortline 2.0, que começa em R$ 254.560.
Toyota Hilux SRV 4x4 flex
| Ficha técnica |
| Preço: R$ 215.690 |
| Motor: Dianteiro, longitudinal, 4 cil. em linha, 2.7, 16V, flex, comando de válvulas duplo no cabeçote, correia dentada |
| Potência: 163/159 cv a 5.000 rpm |
| Torque: 25 kgfm a 4.000 rpm |
| Câmbio: Automático, sequencial, seis marchas, tração traseira ou 4x4, com reduzida |
| Direção:Hidráulica, 12,4 m (diâmetro de giro) |
| Suspensão: Indep., braços sobrepostos (diant) e eixo rígido (tras.) |
| Freios: Discos ventilados (diant.) e tambores (tras.) |
| Pneus: 265/60 R18 |
| Tanque: 80 litros |
| Caçamba: 1.036 litros (fabricante) |
| Peso: 1.985 kg |
| Central multimídia: 8 pol., GPS, TV Digital, USB, Bluetooth, câmera de ré integrada |
| DIMENSÕES |
| Comprimento: 5,32 metros |
| Largura: 1,86 m |
| Altura: 1,82 m |
| Entre-eixos: 3,09 m |
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