Amizade bruta: aceleramos a naked Yamaha MT-09, que parte de R$ 35.990
Equipado com novo motor de três cilindros, modelo completa linha de importados da marca japonesa no Brasil
Por Guilherme Silveira
Após um ano do lançamento da MT 09 na Europa e Estados Unidos, a Yamaha passa a vender a naked por aqui a partir de novembro. A aposta é de nicho, embora produzido em Manaus, o modelo será responsável por 100 unidades/mês. Está de bom tamanho dado o preço que começa em R$ 35.990 para a MT cinza fosco e chega a R$ 36.590 pelas metálicas. Pode não se tornar tão vendida, porém será um hit entre os conhecedores graças ao seu design streetfighter que parece mesclar robô e inseto.
A MT estréia o novo motor 850, de três cilindros em linha, um tipo de arranjo mais comuns nas britânicas da Triumph. Refrigerado a água, gera 116 cv e 8,9 kgfm. São números que fazem jus à nada humilde sigla MT, que significa Master of Torque.
Recheada de eletrônica, a moto sai de série com três entregas de potência e freios ABS. O senão principal é o preço superior a das rivais diretas com exceção de uma. Aqui, suas concorrentes são a tricilíndrica Triumph Street Triple 675 (R$ 32.490/85 cv), e as tetracilíndricas Kawasaki Z800 (R$ 37.000/113 cv) e Suzuki GSR 750 (R$ 34.900/106 cv).
DINÂMICA PRECISA
Avaliada apenas no circuito do ECPA (Esporte Clube Piracicabano de Automobilismo), a MT se mostrou uma moto fácil de acostumar. O banco é baixo (81,5 cm do solo) e mais estreito na frente, acompanhado pela base do tanque esguia e as pedaleiras próximas entre si. Isso, somado ao guidão largo e alto – estilo supermotard – dá uma boa idéia do que a moto é capaz. Basta acionar a ignição, engatar a primeira marcha e acelerar de leve, para notar que o motor tem vigor de sobra... O torque é bruto desde rotações baixas, com valor máximo de 8,9 kgfm a 8.500 rpm.
Para entregar bem esta força ao solo, a naked oferece três modos de condução distintos: no A, o mais arisco, é preciso ficar esperto para a frente não erguer ao arrancar forte; enquanto no Standard a MT fica um pouco mais progressiva – mas ainda assim, empolgante. O “B” é o mais suave, indicado para rodar no trânsito ou mesmo na chuva.
Em poucas voltas no circuito travado, já era possível utilizar bem a Yamaha, que mostrou precisão nas curvas e desvios rápidos. Isso se deve à ciclística bem acertada, e também à leveza da moto. São apenas 191 kg totais, muito disso graças ao extenso uso de alumínio. O material é usado no quadro (fundido a vácuo) e na compacta balança traseira, até o guidão e pedais de câmbio e freio.
Da mesma forma que acelera, a MT freia rápido. Há até certa sobra de “âncoras”: dois discos dianteiros com generosos 298 mm, duas pinças monobloco e oito pistões divididos entre elas. Atrás o disco de 245 mm é potente e igualmente arisco, e o sistema antitravamento, item de série. É preciso saber dosar as “alicatadas” nos dois eixos. Caso contrário, o ABS começa a entrar em ação.
O que mais impressiona é a elasticidade da máquina: é possível rodar a pouco mais de 2.000 rpm sem que o motor reclame. A partir de 4.000 rpm o apetite por ganhar giro cresce e rapidamente se atinge o corte da ignição, perto de 11.000 rpm! A relação de marchas é bem escalonada, e condiz com a força do motor (e das retomadas). A 100 km/h em 6ª, por exemplo, se está a 4.100 rpm. Agradam os engates precisos da caixa, mas a embreagem não é exemplo de maciez.
Dotada de suspensões com ajustes de pré-carga e retorno, traz garfos dianteiros longos e invertidos da Kayaba, com bom curso de 13,7 cm. Atrás o amortecedor tem curso de 13 cm e fica em posição quase horizontal, de maneira que ajuda a centralizar as massas.
Em ajuste intermediário de carga, a MT concilia bem conforto e esportividade. Nas curvas o limite de inclinação é ditado pelas pedaleiras e qualquer escapada é previsível (e corrigível). Auxiliam na pisada eficiente os generosos pneus: 120/70 na dianteira e 180/55 atrás, ambos aro 17.
Após quase uma hora dividida entre “lenha” e um rodar mais tranqüilo para simular uso diário, uma coisa ficou clara na MT 09. É uma moto divertida de pilotar, e de comportamento dúbio: pode ser esportiva como muitas do segmento entre 650 e 900 cc, mas consegue ser versátil e amigável para os menos experientes. Tem tudo para encarar bem na cidade, onde a boa capacidade de esterço ajuda, como em viagens mais longas.
SIMPLICIDADE E CAPRICHO
Apesar do design simples, com poucas peças e carenagens, a MT mostra acabamento bem cuidado. Em especial nas cores metálicas (que acrescem R$ 600), que acompanham bengalas de suspensão douradas e uma faixa vertical no tanque.
O banco é longo e fica mais largo na parte traseira, onde a espuma é mais densa. Já o espaço do garupa é bom, mas há certa carência de espuma e faltam apoios laterais para as mãos. Por falar em mãos, os manetes destoam do conjunto, tamanha simplicidade. No de freio, há ajuste de distância.
Interessante é o fato da cor roxo (metálica) parecer preta, com o tom uva aparecendo apenas com certa incidência de luz solar. O laranja (também metálico) é a opção mais viva, e nas três cores as rodas de 17” trazem faixas adesivas. Na traseira da naked o estilo minimalista fica com a rabeta esguia, acompanhada de uma fina lanterna repleta de LEDs – são 14 lâmpadas para o freio e mais 10 para iluminação.
O painel de cristal líquido lembra um losango e fica deslocado à direita. Se destaca pela quantidade de dados e a facilidade de vê-los – a exemplo do conta-giros que preenche toda porção superior do visor. Informa consumo médio/instantâneo, marcha engatada, temperatura da água e até do ar, além de luz que indica pilotagem econômica.
Comandos junto ao guidão são fáceis de acionar, a exemplo do botão que muda as entregas de potência da moto. Próximo do punho direito, ele só funciona com o acelerador “fechado”.
PROJETO P3
Mostrado pela primeira vez no Salão de Colônia de 2012 sob o código de P3, o novo três cilindros é compacto e faz uso extenso de tecnologia. A começar pelo acelerador “híbrido”, que apesar do cabo junto da manopla, tem a abertura das borboletas de admissão controlada pela injeção eletrônica.
O cabeçote tem dois comandos para as 12V (quatro válvulas por cilindro) e incorpora injetores de doze furos bem próximos das válvulas de admissão. Segundo a marca, pela maior quantidade de orifícios, o spray de gasolina é micrométrico, o que resulta em queima eficiente – e consumo, idem. O tanque não é dos melhores, contudo, são 14 litros - com 2,8 l de reserva.
Como todo tricilíndrico, a tendência é de uma máquina “vibrante”, mas isso é quase que anulado com eixo balanceador. Além disso, se trata de um motor superquadrado: como o diâmetro dos pistões é superior ao seu curso (78 mm x 59 mm), a tendência é de rápido ganho de rotações e boa dose de potência, daí os 116,6 cv (a 10.000 rpm). A taxa de compressão é de 11,5:1. Uma relação alta, mas que não chega a ser extrema para um motor a “água”.
Fica claro o cuidado com a acústica – não por acaso, afinal a Yamaha é famosa por seus instrumentos musicais. Acelerando, o ruídos de admissão e escapamento se complementam e exaltam os sentidos. O mérito é da caixa de ar que fica logo abaixo do tanque, e usa três dutos de comprimentos diferentes, junto a um ressonador. Além de aumentar o torque na ordem de 10%, em acelerações se tem um ronco empolgante de aspiração, junto do curto escape de inox que ronca alto. Os canos por sua vez, trazem fina camada de nanofilm, de maneira a não azularem fácil.









