Toyota defende “justiça tributária” para avançar na eletrificação no Brasil
Marca líder entre os híbridos cobra por reformas nos impostos para acelerar esse processo
Por Marcus Vinicius Gasques
Em quais regiões, em que momento e quanto o governo deve ajudar a indústria automobilística no Brasil é um tema sempre presente. Especialmente agora que a pandemia acirrou uma crise que já havia derrubado produção e vendas de carros.
Opiniões divergem, mas para a Toyota a saída começa pelas prometidas reformas tributária, administrativa e a correção da “situação injusta de incentivos fiscais importantes a empresas do Nordeste e Centro-Oeste”, nas palavras de Roberto Braun, diretor de Assuntos Governamentais da Toyota no Brasil.
“A soma de ICMS e IPI é de 20%, um valor muito expressivo. Mesmo com toda a eficiência da Toyota, não é possível tirar 20% do custo de produção. É dessa forma que os veículos produzidos no Nordeste e Centro-Oeste competem com os feitos no Sul e Sudeste”, afirma Braun.
O executivo se refere à prorrogação até o fim de 2025, sancionada pelo presidente da República em outubro, dos incentivos fiscais concedidos à Ford em Camaçari (BA), Baterias Moura em Belo Jardim (PE), à Caoa, que faz Hyundai e Chery em Anápolis, e HPE, que produz Mitsubishi e Suzuki em Catalão, essas duas cidades em Goiás.
A Receita Federal previu que os incentivos fiscais para montadoras somariam R$ 7,2 bilhões em 2019. Esse montante inclui os benefícios previstos no Rota 2030 – regime da indústria automobilística – e para as empresas do Nordeste e Centro-Oeste. A contrapartida das montadoras é investir em pesquisa e desenvolvimento para melhor eficiência dos veículos.
“Não somos contra os inventivos, mas é preciso ter um prazo. Esperamos que não se renovem os atuais benefícios fiscais”, afirma o executivo da Toyota.
Braun chama a atenção para um item que “pode ter passado despercebido na PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 186”, que criou o auxílio emergencial na pandemia: a previsão de reduzir dos atuais 4,2% do PIB gastos em incentivos para o teto de 2% no prazo de oito anos. “A PEC traz esse compromisso de garantia de redução dos gastos tributários; esperamos que seja cumprida.”
Além de insistir no discurso de que “precisamos de mais isonomia” nos incentivos, o diretor recita ainda o velho mantra defendido pela indústria do setor, de que é preciso trabalhar com previsibilidade e reduzir o chamado “custo Brasil”. Lembrando que a indústria automobilística planeja com ao menos cinco anos à frente a fim de definir investimentos em novos produtos, questiona: “Qual será o cenário para 2026?”
“O mundo todo está indo para a eletrificação, e a Toyota foi a primeira empresa a introduzi-la no Brasil”, diz o executivo. E recorda que a Toyota tem investido no país: R$ 1 bilhão para lançar Corolla híbrido mais R$ 1 bilhão no Corolla Cross.
“O Corolla Cross é feito só em Taiwan, na Tailândia e no Brasil, o que contribuiu para a exportação da Toyota para 22 países das Américas do Sul, Central e Caribe. O país exporta muitas commodities, mas destaque da indústria são os aviões da Embraer e veículos da Toyota”, afirma.
“Ainda que tenha fatiamento, é importante que a reforma tributária seja implementada, com revisão do IPI seletivo e a CBS (Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços, que substitui PIS e Cofins). Espera-se atualização dessas políticas. Queremos competir de forma justa e com isonomia”, diz Braun.
Até o ano passado, segundo o executivo, 70% dos carros eletrificados vendidos no Brasil eram produzidos pela Toyota e por sua marca importada de luxo, Lexus. As reformas podem “melhorar ambiente de negócios” e abrir caminho para o que ele chama de Rota Tecnológica, inaugurada pelo lançamento do primeiro híbrido flex do mercado.
“O etanol mais eletrificado tem visão positiva de outros órgãos do governo, desde a área de Ambiente até Agricultura. Podemos migrar para tecnologia híbrida flex plug in e depois célula combustível com hidrogênio verde. O etanol não vai no tanque, é usado como fonte de produção de energia junto com a solar, a hidráulica e a eólica. A Rota Tecnológica continua usando o etanol”, defende o diretor da Toyota.
Embora não arrisque previsões, Braun fala que a Toyota tem várias tecnologias para oferecer aos clientes: “A tecnologia da célula combustível já está aí e estamos em evolução. Queremos investir para continuar no Brasil, e os países vizinhos querem veículos eletrificados.”
Sobre a crise dos semicondutores, que tem chegado a paralisar algumas linhas de montagem mundo afora, o executivo afirma que a falta de chips afetou produção, “mas não causou impacto, foi mínimo, porque o TPS (Toyota Production System) prevê o just in time, mas o planejamento é longo. Desde o acidente de Fukushima, há dez anos, a montadora fez um mapeamento global de fornecedores “para evitar afetar o processo se algo muito errado acontecer”.
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