Teste: Nissan Leaf anda mais que Sandero R.S. sem beber uma gota de combustível
Segunda geração do elétrico tem desempenho de esportivo. Só resta aguardar a infraestrutura de recarga para aposentar a gasolina
Por Guilherme Blanco Muniz
Quem torce pela chegada e popularização dos carros elétricos no Brasil ficou um pouco mais ansioso no final do ano passado, quando três fabricantes mostraram seus novos carros que não poluem o meio ambiente durante o Salão do Automóvel.
Muitos meses se passaram e nada desses carros aparecerem nas lojas. Agora, esse cenário começa a mudar: o Nissan Leaf é o primeiro da nova leva de elétricos abaixo de R$ 200 mil. Apesar disso, ainda é um carro para poucos.
O Leaf tenta se aproximar do modo de dirigir dos carros a combustão com os quais estamos acostumados. Isso acontece para o bem e para o mal. Um recurso típico dos elétricos é o que a Nissan chama de e-pedal, acionado por um botão no painel, perto do câmbio.
Na prática, o equipamento desacelera o carro quando o motorista tira o pé do acelerador. Ao aliviar o pedal, o sistema de regeneração de energia gera atrito suficiente para conter a velocidade do carro — ou seja, os freios são menos usados.
Com o e-pedal desativado, o motorista precisa usar tanto o pedal do acelerador quanto o do freio, como em um carro convencional.
Segundo a Nissan, uma carga completa na bateria do Leaf garante uma autonomia que varia entre 241 km e 389 km, dependendo do trânsito e do tipo de condução do motorista.
Em caso de urgência, é possível acionar o modo Eco, que diminui o consumo de energia. É uma boa alternativa no dia a dia, quando falta pouco para chegar até sua garagem e recarregar, por exemplo.
É uma solução que usei, de fato, durante meus testes, e rendeu autonomia suficiente para eu não ficar parado no meio do caminho. Ao ativar o regime econômico, o alcance aumentou cerca de 10 km, apesar de ter anestesiado a aceleração.
Há três formas de recarregar as baterias: a mais rápida é também a mais inacessível, já que depende de um sistema parrudo de energia. Esses recarregadores, que conseguem dar 80% de autonomia para o carro japonês em apenas 40 minutos, ainda são raros no Brasil.
Já a forma intermediária, que costuma ser vendida como um opcional, será oferecida pela Nissan aos compradores do Leaf junto com o carro. Trata-se de um recarregador que precisa ser instalado na parede da garagem.
Mais potente do que uma tomada comum, esse sistema leva oito horas para realizar uma carga completa. Parece muito, mas é bem mais rápido do que o carregador convencional, que pode ser ligado direto em uma tomada, mas precisa de 20 horas conectado.
Esse sistema mais básico também será oferecido com o carro e tem como ponto positivo a possibilidade de ser conectado em qualquer tomada que atenda às especificações da fabricante.
A bateria de 40 kWh alimenta o motor elétrico de 110 kW que, por sua vez, gera 149 cv e 32,6 kgfm. São números mais que suficientes para colocar o carro de 1.582 kg em movimento com bom fôlego.
Na nossa pista de testes, o Leaf precisou de 8,3 segundos para chegar aos 100 km/h. É desempenho digno de hatch médio. Para ter uma ideia, o VW Golf 1.4 turbo precisa de 8,4 segundos na mesma prova.
Em boa medida, a entrega de torque máximo o tempo todo e a marcha única são as grandes responsáveis por esse resultado. No câmbio está uma grande diferença em relação a quase todos os outros carros do mercado: no lugar da alavanca comum, um sistema de joystick provoca certa confusão no início. Além disso, o freio de estacionamento é acionado com o pé, não com a mão.
Um dos pontos negativos do Leaf é o espaço para quem viaja no banco de trás. Em outros elétricos, é comum que esse quesito seja um trunfo, já que a disposição das baterias no assoalho ajuda os engenheiros a repensar o interior. No Leaf, por outro lado, o motor fica na dianteira, debaixo do capô, o que é mais uma semelhança com os carros a combustão.
Teste: Nissan Leaf anda mais que Sandero R.S. sem beber uma gota de combustível
Aos passageiros sobraram 2,70 metros de entre-eixos, o que não chega a ser uma ostentação. Mas o principal ponto negativo é que o piso não é plano e tem um duto central generoso. Assim, seria bastante desconfortável para um terceiro passageiro viajar no meio da segunda fileira de bancos.
Já o porta-malas é grande: são 435 litros, segundo a Nissan. Como base de comparação, há mais espaço para bagagens no hatch elétrico do que no utilitário médio Jeep Compass (que oferece volume de 410 litros).
Vendido em versão única no Brasil, batizada de Tekna, o Leaf é bem equipado — afinal, também é caro. Dos R$ 178.400 cobrados na pré-venda, saltou para R$ 195 mil. Esse valor já inclui os dois tipos diferentes de carregadores caseiros que podem ser usados no carro.
O Leaf vem de série com controle de velocidade adaptativo (freia o carro caso outro esteja mais devagar à frente e retoma a aceleração quando possível), monitor de tráfego cruzado, alerta de ponto cego e de mudança de faixa, além de frenagem de emergência.
O modelo também conta com volante multifuncional, tela multimídia sensível ao toque de 8 polegadas com Apple CarPlay e Android Auto, ar-condicionado digital, câmera 360 graus e bancos revestidos de couro.
Há, ainda, faróis de LED e seis airbags (dois frontais, dois laterais e dois de cortina). Pena que o carro não tenha ajuste de profundidade do volante, o que prejudica a ergonomia.
A garantia de fábrica é de 3 anos e a Nissan garante o bom funcionamento do conjunto de baterias por 8 anos ou 160 mil km. Mas nem todos poderão achar o carro com facilidade, já que apenas sete lojas em todo o país estão preparadas para oferecê-lo ao público.
Elas ficam em cinco diferentes estados, além do Distrito Federal, nas cidades de São Paulo (única com duas lojas), Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e Brasília. Ou seja: para quem está no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, ainda não será fácil ter um elétrico na garagem.
TESTE
Aceleração
0 - 100 km/h: 8,3 s
0 - 400 m: 16,1 s
0 - 1.000 m: ND
Vel. a 1.000 m: 149,9 km/h
Vel. real a 100 km/h: 100 km/h
Retomada
40 - 80 km/h (D): 3,2 s
60 - 100 km/h (D): 4,3 s
80 - 120 km/h (D): 5,8 s
Frenagem
100 - 0 km/h: 42,2 m
80 - 0 km/h: 26,7 m
60 - 0 km/h: 15,8m
FICHA TÉCNICA
Motor
Elétrico de 110 kW, bateria de íon de lítio de 40 kWh
Potência
149 cv
Torque
32,6 kgfm
Câmbio
Automático de 1 marcha
Direção
Elétrica
Suspensão
Indep. McPherson (diant.) e eixo de torção (tras.)
Freios
Discos ventilados na dianteira e na traseira
Pneus
215/50 R17
Dimensões
Compr.: 4,48 m
Largura: 1,79 m
Altura: 1,56 m
Entre-eixos: 2,70 m
Porta-malas
435 litros (fabricante)
Peso
1.582 kg
Central multimídia
8 pol., sensível ao toque
GARANTIA
3 anos
Revisões
10 mil km: R$ 229
20 mil km: R$ 539
30 mil km: R$ 229