Teste: Audi RS 4 é para as famílias muito apressadas

Perua de 450 cv pode não ter mais motor V8 de alta rotação, mas está mais rápida do que nunca

Por Julio Cabral


Novo Audi RS 4 tem detalhes esportivos como o kit aerodinâmico (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte

Em um mundo povoado por SUVs, há peruas que vão sobreviver por conta do espaço interno, da praticidade no dia a dia e do comportamento próximo ao de um sedã. Mas uma delas em particular se manterá apenas em nome do prazer de termos algo ultrarrápido para uma fuga até o supermercado ou uma corrida ao colégio das crianças. Estou falando da Audi RS 4, uma superstation de R$ 546.990.


Seria um contato restrito à pista de testes da Auto News Brasil, em Tatuí (SP). Eu estava ansioso — afinal, a antiga, com motor V8 4.2 “girador”, marcou época: um carro que induzia a fazer trocas desnecessárias e ultrapassar os 8.000 rpm. Mas como seria o novo V6 biturbo?

Para-lamas superlargos são característicos dos Audi esportivos desde o Sport Quattro (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte


O V6 2.9 tem os mesmos 450 cv do V8 e, como bom turbinado, seu torque de 61,2 kgfm é de muscle car e alcança entre 1.900 e 5.000 rpm, enquanto o antecessor fazia o mesmo aos 4.000 rpm. Eu já sabia que o carro era mais rápido e “torcudo” que o modelo anterior, mas minha questão era a emotividade, que não é condensada por números frios — mesmo que eles sejam muito quentes!

A mudança pode ser considerada um retorno às origens. Afinal, a primeira RS 4 surgiu em 1999 com motor V6 2.7 de 380 cv da preparadora Cosworth. O V8 mesmo foi adotado nas gerações seguintes. Até a antecessora RS2 usava um turboalimentado, um cinco cilindros 2.2 de 315 cv e afinação feita pela Porsche.

Um enorme aerofólio faz par com as saídas de escape robustas (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte


Após certa espera, a RS 4 surgiu sobre a plataforma de um caminhão VW. Antes mesmo de descer, ela já havia me convencido em estilo. A frente malévola exprime sua agressividade em pontos como a enorme grade hexagonal e as entradas de ar integradas aos defletores.

Os para-lamas são pura nostalgia. A inspiração veio do Audi Quattro de rali, lançado em 1980 e convertido para as ruas. De tão largos, eles têm até insertos que imitam entradas e extratores de ar. O enorme spoiler na traseira faz par com as robustas saídas de escapamento.

Cabine tem acabamento perfeito, que pode misturar couro, camurça e fibra de carbono (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte


Ao dar a partida, o ronco grave se espalha em ondas abafadas. O antigo era metálico e, nesse momento, já teria feito alguns pássaros se pirulitarem com uma varrida desnecessária do conta-giros. Não tem jeito, os turbos roubam os gases do escape, que retornam até a admissão e, em troca, entregam aquela mágica.

A RS 4 tem controle de largada dos mais simples: basta desligar o controle de estabilidade em um botão, segurar o freio e cravar o acelerador até o medidor de pressão (Overboost) indicar o máximo. Depois, é só soltar o freio e manter o pé embaixo para disparar de zero a 100 km/h em 4,1 segundos — é bem mais rápida que a antecessora, que fazia isso em 4,8 s. As retomadas também comprimem tempo e espaço, enquanto as frenagens são de deixar marcas do cinto no tórax: 23,2 metros de 80 km/h a zero.

O quadro digital tem várias visualizações, nenhuma mais legal que o conta-giros em destaque (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte


O automático de oito marchas substitui o antigo DSG de dupla embreagem e sete marchas sem prejuízo para a rapidez. Outra responsável pela performance é a tração Quattro, que joga 60% da força na traseira para dar aquele jeito sobre-esterçante. Se preciso, até 70% da força vai para a frente e 85% para trás.

O “bichinho do turbo” já havia me contaminado, mas eu não poderia sair da pista com ela. O jeito foi dar várias voltas quentes. O quadro de instrumentos digital traz o conta-giros em destaque e, no modo esportivo, usa as cores verde, amarela e vermelha para indicar o momento das trocas. A velocidade na reta passava de 240 km/h com facilidade; e o limitador a 250 km/h pode ser eliminado, permitindo atingir 280 km/h.

Espaço na traseira é o suficiente para pessoas com pouco mais de 1,80 metro (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte


Eis que dei sorte: o sujeito que trouxe a perua não voltou, e a Audi pediu encarecidamente que eu levasse a RS 4 de volta a São Paulo. Valeu, motorista, onde quer que esteja!
Na estrada, a perua mostrou--se na mão. O peso 80 quilos menor, equivalente a um adulto, deixou a RS 4 mais gostosa de tocar. Nem mesmo uma chuva intensa atrapalhou, somente a aquaplanagem dos pneus largos me fez tirar o pé. 

Ao chegar a São Paulo, a RS 4 foi caprichosa andando sobre as imperfeições. No modo Dynamic, ela não engole os desaforos do piso, mas no Comfort os solavancos são minimizados e o rodar é digno. Em espaço, só o túnel central atrapalha um quinto adulto; quatro ficam bem acomodados — inclusive as bagagens, graças ao porta-malas de 505 litros. O compartimento tem ainda tampa traseira elétrica, que pode ser acionada à distância na chave. 

Porta-malas tem bom volume e tampa traseira elétrica (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte


E a família vai bem. Os bancos frontais inteiriços possuem três programas de massagem para tirar a tensão durante engarrafamentos e track days; o som da Bang & Olufsen, com 19 alto-falantes, é daqueles que fazem você ouvir notas que nunca havia notado na sua música favorita; e os revestimentos de couro e de Alcantara deixam tudo mais aconchegante. Somado a isso, agora o controle de cruzeiro é adaptativo e segue o trânsito. Pena que o multimídia continue insensível ao toque.

Outro porém é o consumo médio de 7,9 km/l, pequena melhora face aos 7,3 km/l da antiga. É o único número que não impressiona em uma perua tão superlativa.

Teste

Aceleração
0 - 100 km/h: 4,1 s
0 - 400 m: 12,3 s
0 - 1.000 m: 22,6 s
Vel. a 1.000 m: 232,6 km/h
Vel. real a 100 km/h: 98 km/h

Retomada
40-80 km/h (Drive): 2 s
60-100 km/h (D): 2,5 s
80-120 km/h (D): 2,9 s

Frenagem
100 - 0 km/h: 36,9 m
80 - 0 km/h: 23,2 m
60 - 0 km/h: 13,6 m

Consumo
Urbano: 5,4 km/l
Rodoviário: 10,5 km/l
Média: 7,9 km/l
Aut. em estrada: 609 km

Ficha técnica

Motor
Dianteiro, longitudinal, 6 cil. em V, 2.9, 24V, comando duplo, biturbo, injeção direta de gasolina

Potência
450 cv entre 5.700 e 6.700 rpm

Torque
61,2 kgfm entre 1.900 e 5.000 rpm

Câmbio
Automático de 8 marchas e tração integral

Direção
Elétrica

Suspensão
Indep. Multilink

Freios
Discos ventilados

Pneus
275/30 R20

Dimensões
Compr.: 4,78 m
Largura: 2,02 m
Altura: 1,40 m
Entre-eixos: 2,82 m

Tanque
58 litros

Porta-malas
505 litros (fabricante)

Peso
1.715 kg

Central multimídia
8,3 pol., não é sensível ao toque

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