Como foi ir de Fiat Panda 4x4 do Rio de Janeiro até a Amazônia seguindo um mapa de papel?
Raid del Coraggio Brasile reuniu 50 Fiats Panda 4x4 italianos em uma aventura do Rio de Janeiro a Manaus nos anos 1980 - muito antes do GPS, da telemetria e dos celulares
Por Marcos Rozen
Raid da Coragem: este foi o nome de uma expedição off-road organizada por uma empresa italiana, a Safariways, em meados dos anos 1980.
Era uma espécie de Camel Trophy para amadores: você pagava US$ 5,5 mil – ou US$ 13 mil (R$ 65 mil) no valor corrigido – e lhe entregavam as chaves de um valoroso Fiat Panda 1.0 4x4 de 50 cv, superequipado com um mapa em papel, uma barraca no teto e um rádio comunicador, para você atravessar alguma região inóspita do planeta Terra.
A primeira edição do raid ocorreu na África, em 1985; a segunda na Austrália e a terceira na Islândia, ambas em 1986. A quarta, na passagem de 1987 para 1988, foi no Brasil.
Nada menos do que 50 Pandas 4x4 vieram para cá de navio, todos com placas italianas. Logo depois, cem europeus chegaram de avião, prontos para enfrentar o mais puro creme do off-road raiz. Eram dois por carro — a maioria nem se conhecia e quase ninguém falava português. O roteiro original, de quase 4 mil km, previa ir do Rio de Janeiro a Manaus em 15 dias.
Em tese, havia uma grande estrutura: utilitários e caminhões com organizadores, mecânicos e guias brasileiros acompanhavam o raid carregados com todo tipo de material necessário, principalmente peças de reposição.
Em um dos caminhões foi montada uma cozinha para refeições na mata. O que poderia dar errado? Tudo, é claro.
A trupe saiu animada do portentoso Rio Othon Palace Hotel na manhã de 17 de dezembro de 1987. Rumaram para Belo Horizonte e, no dia seguinte, para Brasília. Até aí tudo bem, com asfalto e conforto, mas os participantes começaram a perceber que a coisa funcionava mais no esquema “cada um por si” do que exatamente como um comboio.
Ainda que veículos da organização fossem os últimos e não deixassem ninguém para trás, cada um seguia seu ritmo da forma que bem quisesse ao longo do trajeto.
Quando a caravana entrou no Mato Grosso acabou o asfalto e a aventura de verdade começou: longos trechos de lama, atoleiros e pontes improvisadas com troncos de madeira dificultaram a vida dos participantes e dos carros.
Quanto mais mata, maiores as encrencas, com direito a cobras e aranhas enormes pelo caminho, que contava com pernoites em fazendas.
Mesmo saindo de manhã de cada ponto de partida, muitos só conseguiam chegar ao próximo destino na madrugada, exaustos, e outros só na manhã seguinte.
Cruzando o Parque Indígena do Xingu em plena época de chuvas, o Raid del Coraggio Brasile mostrou que seu nome não era à toa: os perigos na selva eram tantos, para participantes e carros, que foi proibido dirigir à noite.
Se o carro atolasse ou a orientação quebrasse, o jeito era pegar carona com o próximo que passasse e largar o Panda por lá mesmo — a organização resolveria depois.
Ainda que valentes, vários carros viram seus câmbios, semieixos e pneus mistos 145 aro 13 perderem a batalha para as trilhas da região.
Os rádios comunicadores já não funcionavam mais e os mecânicos faziam o que podiam para manter os carros andando, muitas vezes na base do improviso. Um deles chegou a se referir a um trecho do raid como “o massacre dos Pandas”.
Literalmente aos trancos e barrancos, já depois da virada do ano, os aventureiros em seus Pandas conseguiram atravessar a Serra do Cachimbo e de lá alcançaram, ninguém sabe direito como, a cidade de Santarém.
Com o prazo final do raid se esgotando e péssimas condições à frente, a organização decidiu mandar todos a Manaus de avião mesmo, completando o percurso.
Você pensa que acabou? Pois lá em Manaus outros cem europeus aguardavam para fazer o trajeto de volta ao Rio de Janeiro, com os mesmos carros, nos 15 dias seguintes. Isso sim, amigos, é que se pode chamar de coragem!
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