Por Michelle Ferreira

Editora na Auto News Brasil

Opinião: Reparo de carros modernos exige formação mais rigorosa

Movimento "Right to Repair" quer sensibilizar políticos a criar leis para que os fabricantes não impeçam clientes de consertar os produtos do modo que desejarem


Movimento quer sensibilizar políticos a criar leis para que os fabricantes não impeçam os clientes de consertar os produtos do modo que desejarem Getty images

Existe um forte movimento nos Estados Unidos chamado Right to Repair, ou Direito de Consertar, em tradução livre. A ação defende que os clientes consertem seus celulares, carros e demais produtos em casa ou em uma “oficina de confiança”, não necessariamente ligada ao fabricante.

Em um passado já distante, os equipamentos eram mais simples. Na era pré-smartphone, os celulares tinham baterias que duravam dias. Quem aí se lembra?

Esses telefones eram fáceis de arrumar, e o próprio dono poderia abri-lo e trocar a bateria, por exemplo. Muitos componentes eram intercambiáveis, com peças de reposição facilmente encontradas.

Conforme a tecnologia avançou, os gadgets ficaram cada vez mais “fechados”. As empresas descobriram um filão: passaram a impor limites de reparo e até a decidir o que pode ou não ser consertado, estabelecendo elas próprias uma tabela de valores para a manutenção.

Como as empresas fazem isso? Criando peças e ferramentas exclusivas. Os celulares da Apple possuem parafusos especiais e conectores que só funcionam nos produtos da marca. A companhia proíbe que terceiros abram seus smartphones e ameaça o cliente com a perda da garantia.

E isso tem acontecido lentamente com os carros, inclusive para simples consertos do dia a dia. Duvida? Suponha que você tenha amassado o para-choque ao estacionar na garagem. Um simples martelinho de ouro resolveria seu problema, certo? Não se o seu carro for de última geração e tiver uma parafernália eletrônica, como sensores, radares e câmeras.

Os fabricantes argumentam que estão protegendo os consumidores ao restringir quem faz os reparos — e eles têm razão, de certa forma. Um mecânico hoje precisa conhecer programação, eletrificação e ter formação sólida em eletrônica para lidar com os diversos módulos e sensores. O problema é que isso exige tempo. Para ter ideia, um mecânico da BMW leva seis anos para chegar ao nível sênior.

Emílio Paganoni, head de Treinamento do BMW Group Brasil, afirma que o direito de reparar não está tolhido, mas que a qualificação dos profissionais faz toda a diferença na hora da manutenção. “Esses carros têm superprocessadores e, se um mecânico queimar um módulo, por exemplo, o conserto pode chegar a R$ 30 mil. O direito de reparar é de todos, mas para fazer o conserto é preciso ter a formação adequada. Não é mais na tentativa e erro.”

A solução para isso é relativamente simples e tem nome: educação. A indústria precisa investir em formação para garantir que seja fácil e principalmente barato o conserto dos veículos. Mas, convenhamos, isso não vai acontecer sem que haja leis e regras para que as fabricantes liberem informações e ferramentas. Eis aí a importância do “Direito de Consertar”.

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