Você pode ter um VW Futura na garagem – e nem sabe
Carro-conceito que foi destaque do Salão do Automóvel de 1990 estava décadas à frente de seu tempo
Por Marcos Rozen
Vamos fazer um teste. Olhe seu carro e responda: ele tem freio de estacionamento elétrico? Tem sensor de distância do carro à frente? Direção elétrica? ABS com EBD? Painel digital? Carregador de celular? Park Assist? Cadeira infantil embutida no banco traseiro? Viva-voz para fazer e receber chamadas? Motor com injeção direta?
Se você respondeu sim a alguma dessas questões, parabéns: você tem um Volkswagen Futura na garagem — ainda que ele tenha outro nome e até mesmo seja fabricado por outra montadora.
O Futura foi um carro-conceito apresentado no Salão de Frankfurt (Alemanha) de 1989. Ele veio para o Brasil logo no ano seguinte e foi um dos destaques do Salão do Automóvel de São Paulo, em 1990.
Mais que um conceito, porém, o Futura era uma espécie de laboratório sobre rodas onde foram unificadas todas as tecnologias mais modernas em desenvolvimento naquela época. E, olhando com as lentes de hoje, o que é fácil e cômodo, o índice de acerto foi impressionante.
Uma das visões mais interessantes era a respeito dos celulares — e olha que estamos falando do tempo dos tijolões na Europa e nos Estados Unidos, quando nem existia a internet como a conhecemos hoje. Em um material de época sobre o Futura encontrado no acervo do Museu da Imprensa Automotiva (Miau), a VW dizia: “Em um futuro próximo o uso de um telefone celular a bordo será tão comum quanto o de um rádio hoje”.
O Futura tinha um sistema desenvolvido pela Motorola que permitia encaixar o celular no console entre os bancos e, então, fazer e receber ligações por viva-voz, além de acessar a agenda. Uma vez encaixado, o aparelho também era carregado. Só que, para isso tudo, era preciso conectar um cabo ao celular, algo desnecessário hoje em dia graças ao Bluetooth e ao NFC.
Outro ponto interessante era o sistema de radares ultrassônicos e a laser, da Bosch e da Ibeo. Na dianteira, mediam a distância do carro à frente e exibiam alertas amarelos ou vermelhos no painel digital de instrumentos em LCD para avisar o motorista. Mas a tecnologia não incluía frenagem automática, provavelmente porque ninguém havia pensado nisso naquela época — afinal, os radares já estavam interligados aos sistemas de direção (elétrica), ao motor (a gasolina com injeção direta) e aos freios (ABS com EBD).
Isso foi desenhado para fazer funcionar o maior show do Futura: o estacionamento automático. Assim como nos veículos de hoje, o carro “lia” a vaga e estacionava sozinho, ainda que somente em vagas paralelas. O motorista não precisava nem controlar os pedais — se quisesse, podia até descer do carro e assistir de longe. Mas havia um segredo: o eixo traseiro também era direcional, o que facilitava muito o movimento da manobra. E não havia nada ultrassofisticado nesse caso, pois tratava-se só de um eixo dianteiro invertido, vindo do Golf.
Depois de passear pelo mundo e exibir seu aparato modernista, o Futura ganhou um lugar no acervo do museu da VW em Wolfsburg, na Alemanha. Mas não faz mais parte da mostra fixa por apresentar sinais de desgaste, de tanto ter sido experimentado: o banco do motorista e a alavanca de câmbio, por exemplo, estão bem deteriorados e gastos.
Você pode estar se perguntando: se já existia um carro com tudo isso em 1989, por que demorou tanto para essas tecnologias chegarem aos demais veículos? A dúvida é justa e pertinente. A própria VW, na época, calculava que tais recursos estariam disponíveis “entre 10 e 15 anos”, quando o prazo real foi mais ou menos o dobro do que o projetado. Ocorre que nem tudo depende exclusivamente da tecnologia; afinal, não adianta nada um carro ser supermoderno e custar tão caro a ponto de se tornar inviável comercialmente.
Outra questão é a capacidade produtiva dos fornecedores: uma coisa é produzir quase artesanalmente um equipamento para um único carro e outra bem diferente é fabricá-lo em escala industrial, aos milhares, para vários modelos de diferentes marcas. Na época, por exemplo, a VW não contou a ninguém, mas o Futura não tinha porta-malas. Todo o espaço disponível para carga foi ocupado pelos computadores que controlavam os sistemas eletrônicos do carro.
É verdade, poderíamos reclamar que demorou demais para essas tecnologias chegarem. Mas, de qualquer forma, dá para dizer que, pelo menos sob o ponto de vista daquele começo dos anos 1990, temos agora na garagem um carro do futura — ops, digo: futuro.









