Urbee é carro impresso em 3D que roda 100 km com 1 litro de combustível
Criador do projeto acredita que carros com pouca potência, muita autonomia e emissões de poluentes quase zeradas são tendência para o futuro
Por Jéssica Ferrara; Guilherme Blanco Muniz
As impressoras tridimensionais estão se tornando cada vez mais comuns nos setores industriais, e com a indústria automotiva não seria diferente. Sob o simpático nome Urbee, Jim Kor, presidente da Kor Ecologic, desenvolveu o primeiro carro do mundo produzido com impressoras 3D e está na lista dos carros mais sustentáveis já feitos.
Seus 8 cv de potência podem até parecer insuficientes, mas eles têm a ver com o conceito a partir do qual o carro foi pensado. “Hoje em dia, compramos carros com 300 cv achando que vamos correr à milhão nas ruas, mas a verdade é que ficamos parados no trânsito. Então, por que não criar um carro sustentável, prático e que condiz com nossa condição atual?”, questiona Kor.
Há quase 15 anos no projeto, Kor e sua equipe já estão planejando a segunda versão do carro. Em entrevista a Auto News Brasil, Jim Kor explica as especificações do veículo já produzido e adianta detalhes do Urbee 2, que promete buscar excelência em segurança aos passageiros, além dos aspectos de sustentabilidade.
Quanto tempo o Urbee 1 levou para ser feito? Quanto custa para produzir uma unidade?
O projeto do carro Urbee começou há 15 anos, mas lançamos nosso primeiro protótipo em 2013, o Urbee 1. Ele se tornou o primeiro carro a ter seu corpo impresso em impressoras 3D, e acreditamos que é o carro mais sustentável já feito. O modelo levou esse nome pela junção do conceito ‘Urban Electric’ (junção de “urbano” e “elétrico”).
A fabricação do carro inteiro, que tem cerca de três metros de comprimento, um de altura e um de largura levou por volta de 2.500 horas. O motor híbrido do Urbee produz 8 cv de potência, capazes de levá-lo a uma velocidade máxima de 110 km/h.
Atualmente a capacidade de produção do Urbee é de aproximadamente 3 mil unidades anuais, com um preço de R$ 118 mil, mas a produção em massa reduziria o valor a R$ 38 mil.
Como é possível que o Urbee consuma apenas 1 litro a cada 100 km rodados?
Ao usar um único bloco de peças ao invés de muitas, fabricadas com o plástico ABS, que além de ser extremamente rígido, já é mais leve, o carro tem menos espaços entre as peças. Além disso, o Urbee pesa apenas 544 kg, o que contribui com a média de 100 km/l.
Vale lembrar que, se o carro fosse muito leve, o vento iria empurrá-lo, e se o carro fosse muito pesado, iria se mover muito lentamente. Por isso, tivemos que achar um meio termo.
Quais foram os motivos que o levaram a pensar no Urbee?
Hoje, há 1 bilhão de carros no mundo. Com a população e a riqueza crescente, isto se transformará rapidamente para 2,5 bilhões de carros em 2050. Se os modelos forem semelhantes aos de hoje, isso implicará em um desastre.
De acordo com a Agência Internacional de Energia, em 2050, a menos que a emissão de 2/3 dos combustíveis fósseis seja reduzida, o mundo será uma região não habitável. Com uma equipe pequena, independente de designers experientes, acreditamos que era a hora de agir.
Como designer, eu senti que poderia contribuir para uma mudança positiva. Hoje em dia, compramos carros com 300 cv achando que vamos correr à milhão nas ruas, mas a verdade é que ficamos parados no trânsito. Então, por que não criar um carro sustentável, prático e que condiz com nossa condição atual?
Agora que o Urbee já foi lançado, vocês se dedicam à projetar a segunda versão do carro. O que podemos esperar do próximo modelo?
Com exceção da estrutura do chassi e a parte mecânica, o Urbee 2 terá cerca de 40 a 50 peças grandes e complexas fabricadas pela impressora 3D. Funciona assim: combinamos uma variedade de partes sob formas simples de um monobloco. Então, quando imprimirmos o painel, já o fabricamos com os dutos, anulando a necessidade de juntar as partes que se conectam à peça principal. Assim, o que seriam dúzias de peças termina sendo apenas uma única. Ao usar uma única peça ao invés de muitas, o carro tem menor peso e acaba sendo excepcionalmente aerodinâmico. Com sua forma de gota, o Urbee 2 tem um coeficiente de arrasto de apenas 0,15.
Além disso, somos capazes de testar milhares de alternativas para a composição do material ideal virtualmente, além da forma e do processo de produção em computadores de alto desempenho. Seria impossível e muito caro testar todas essas opções com protótipos físicos. Desse modo, o primeiro protótipo físico já é muito semelhante ao produto final.
Hoje em dia as indústrias aeroespaciais utilizam essas técnicas para criar novos modelos, conseguindo mecânica superior, desempenho mais alto, menores custos de produção e substituição de materiais caros e menos seguros.
Como funcionará a propulsão hibrida do Urbee 2?
Na estrada, ele pode ser comparado a um carro movido à gasolina, porém a queima de combustíveis fósseis será reduzida, já que utilizará um bio-combustível. Na cidade, ele usaria o motor elétrico, podendo percorrer até 30 km apenas usando energia solar. Caso necessite de mais potência, o motor do Urbee pode carregar as baterias a bordo, convertendo o combustível em energia elétrica.
Seu consumo de energia é baixo o suficiente para que possa ser alimentado apenas por energia renovável, não necessitando de gasolina. O veículo conta com um bom desenho aerodinâmico e foi projetado para obter o máximo de eficiência com o mínimo de combustível.
Quais serão os avanços em termos de segurança dos passageiros do Urbee 2?
O novo projeto está sendo produzido para passar na inspeção técnica de carros de corrida de Le Mans, na França. Os carros de corrida são muito seguros, e se Urbee 2 tiver esse padrão será um grande diferencial para competir com a concorrência.
Para isso, começamos algumas simulações virtuais e os resultados iniciais mostraram que ainda precisamos nos concentrar na resistência ao choque e refinar o Urbee 2. Estamos confiantes de que podemos alcançar a melhor segurança tecnicamente possível.
Você pretende vender o carro em escala comercial? A legislação permite que carros feitos em impressoras 3D circulem pelas ruas?
A maioria dos carros que projetei entraram no setor de produção e encontraram mercados mundiais. Nossa intenção é fazer com que Urbee 2 entre em condições de circular e seja mais seguro do que os carros de produção existentes.
Sendo um veículo de três rodas, Urbee provavelmente será registrado como uma motocicleta e, assim, precisam requisitos legais mínimos. Como o projeto ainda está em fase de testes, os regulamentos ainda não são nossa prioridade.
Você acha que a produção em série de carros como o Urbee é possível e pode ser uma tendência para o futuro?
Sim, nós estamos muito esperançosos de que isso se torne comum, pois a indústria está evoluindo rapidamente. Os setores odontológicos e os de aparelho auditivo já utilizam as impressoras tridimensionais e as indústrias aeroespaciais, como eu disse, também estão usando essa forma.
Confira o vídeo do primeiro Urbee acelerando:









