Entenda o novo motor 1.0 EcoBoost da Ford
Novas tecnologias são destaque do três cilindros turbo que chega às lojas no Ford Fiesta
Por Marcus Vinicius Gasques
Desacreditado no passado por parte da indústria, tratado como jabuticaba - “só tem no Brasil” -, e mesmo por setores da imprensa especializada, o motor 1.0 chega agora com status de alta tecnologia e eficiência energética, com a adoção de turbocompressor e recursos voltados para extrair o máximo do combustível. E, novamente, torna-se a prova de que menos pode ser mais: menos peso, menos um cilindro, menos consumo, em troca de mais torque, mais potência e… preço. Bom de respostas ao acelerador, o motor EcoBoost 1.0 mantém o motorista mais tempo longe do posto de gasolina, mas também passa a ser o mais caro da linha Ford Fiesta.
“Esse três-cilindros se comporta como um motor 50% ou 60% maior”, afirma Volker Heumann, engenheiro chefe Powertrain da Ford na América do Sul. Segundo o executivo, a cilindrada menor com turbo e injeção direta resulta em economia combinada com mais performance e menos emissões de CO2. E garante o necessário no uso rotineiro, em baixas rotações: “O motorista na cidade roda 98% do dia a dia em rotações mais baixas, até 3.000 rpm”, afirma Volker.
Toda a linha Ford nos EUA tem opção para motores EcoBoost, uma família de sete motores, de 1.0 até 3,5 litros. Segundo a empresa, a participação é de 80% no restante do mundo, e de 30% no Brasil, por enquanto. “O motor 3.5 V6 entrou no lugar do 5.0 V8 na F150 e vai muito bem; o Fusion V6 3.0 passou a ser um 2.0 EcoBoost, manteve os 240 cavalos e agora é o favorito dos clientes (85%)”, lembra o engenheiro.
O motor que estreia no Fiesta é o primeiro Ford três-cilindros na América do Sul. Foi eleito Motor do Ano pela quinta vez consecutiva na categoria até 1 litro, e três vezes em sequência apontado como melhor motor geral. O 1.0 que passa a ser opção para o Fiesta e sua transmissão de seis marchas Powershift são produzidos em Craiova, na Romênia. A turbina é fornecida pela alemã Continental.
A Ford afirma ter registrado 275 patentes para o EcoBoost, que é produzido a partir do mesmo bloco do Sigma. O resultado também é medido em termos de seguranca, segundo Volker: “Há um critério de pesquisas nos Estados Unidos, o time exposed to danger (TETD), ou tempo de exposição ao risco durante uma ultrapassagem. O EcoBoost é 20% mais seguro nesse momento. As acelerações são até 20% melhores com relação ao motor 1.6”, garante o engenheiro.
O momento difícil da economia do país por enquanto não anima a Ford a fazer planos de nacionalização do EcoBoost, ou comentar a possibilidade de uma versão flex. A boa notícia para o consumidor é que a primeira revisão de seis meses deixa de existir na linha Ford 2017; ela passa a ser recomendada com um ano ou 10 mil km. “O custo de manutenção deve se manter próximo ao do atual motor”, diz Volker.
Se o resultado do lado de fora do motor é o bastante para a grande maioria dos motoristas, a tecnologia do EcoBoost pode interessar aos que têm curiosidade de erguer o capô não apenas para checar o lubrificante ou o líquido de arrefecimento. O motor conta com duplo comando de válvulas - solução técnica já comum -, mas começa a mudar com o turbo de geometria fixa, com pressão de até 1.5 bar (uma vez e meia a atmosfera).
A injeção direta de gasolina elimina o desperdício de combustível nos dutos de admissão e é feita junto à vela: “Se a mistura é injetada distante perde-se eficiência”, justifica Volker. O injetor elétrico tem seis furos e alta pressão variável (até 150 bar), enquanto na injeção comum a pressão é de 4 bar. O resultado, afirma a Ford, é a vantagem na atomização mais eficiente do combustível, com mistura mais fina e melhor queima.
Outro resultado positivo da injeção direta é o “efeito de lavagem nos cilindros”. “Empurra-se mais ar limpo para os cilindros e emite mais ar limpo”, afirma Volker, lembrando que com isso se reduz o fenômeno de detonação (batida de pino). Caso o tanque seja abastecido com gasolina batizada, “o motor não vai entregar mesma performance, mas o bico injetor está ‘protegido’ por altas temperaturas dentro da câmara”, garante o engenheiro da Ford.
Após passar por uma lombada, por exemplo, o motorista conta com resposta mais ágil do motor do que em um aspirado normal. Volker explica por que o turbo lag (o vacilo na resposta do motor) não deve incomodar o motorista: “De 50 a 90% do torque está presente a 1.500 rpm em 1,5 segundo”. O EcoBoost conta com válvula Wastegate (permite que apenas parte dos gases de escape passe pela turbina) a fim de modular a pressão até 248 mil rpm, de até 1.5 bar na saída do compressor. Na prática, diz a Ford, isso viabiliza desempenho equivalente a um motor 50% maior.
A economia de combustível foi perseguida em cada solução técnica no desenvolvimento do motor, como a bomba de óleo variável, que modula a pressão em cargas parciais. Quando necessário, ela bomba atua a 4 bar; em dias menos frios, o óleo está menos viscoso, e a pressão é menor, de 2 bar. A redução do consumo, segundo a Ford, é de 0,5%. “Em cargas parciais, não quero o máximo; velocidade de cruzeiro é economia”, afirma Volker. Em condições de exigência menor, não é necessária tanta lubrificação e resfriamento; a pressão modulada pela caixa de controle resuta menos desperdício de óleo.
A correia banhada pelo mesmo lubrificante do motor, afirma Volker, tem maior durabilidade sem manutenção. Trabalha com menor nível de ruído (redução de 10 decibéis) e dá sua contribuição para a economia de combustível (até 1%) pela redução de atrito. “Ela é resultado de desenvolvimento de vários anos, feita para durar 240 mil km”, diz ainda o engenheiro.
Mais engenharia: o coletor de escape integrado do EcoBoost permite aquecimento mais rápido do motor e, sem aumento do fluxo de combustível, também do catalisador. A redução da temperatura e do volume dos gases resultantes da queima da gasolina tem como consequência menos turbo lag, com economia de combustível em alta performance.
O EcoBoost conta ainda com sistema duplo de aquecimento e arrefecimento: “Há dois termostátos para melhor distribuição de temperatura do motor; óleo e fluido são aquecidos mais rápido, com benefício de menor consumo e emissões”, afirma Volker. Submetidos a altas cargas térmicas e de pressão, os pistões contam com sistema de resfriamento acionado pela bomba variável pelo módulo de controle do motor. O Intercooler dá sua contribuição no jogo das temperaturas extremas. De tamanho compacto, cumpre a função de resfriar o ar comprimido e também ajuda a reduzir o consumo.









