Aceleramos o elétrico Nissan e-NV200
Versão elétrica do furgão NV200 impressiona pela dirigibilidade e desempenho. Protótipo passou um mês em testes no Rio
Por Fernando Miragaya; do Rio de Janeiro
O assovio fino chama a atenção da mocinha que passeia com o cachorro pela calçada. Imóvel por alguns instantes, ela fixa os olhos em minha direção. Mas antes que alguém ache que eu sou um deus grego cheio de si – e que minha doce patroa peça o divórcio –, o que chama a atenção desta e de outros transeuntes é mais uma estratégia da Nissan para evidenciar seus veículos elétricos. Estou a bordo de um e-NV200, a versão movida a bateria do furgãozinho da Nissan que vai estrear no Salão de Genebra, mas que já rodou durante um mês no Rio.
O veículo cheio de adesivos ainda é um protótipo baseado na van conceito mostrada no Salão de Hannover de 2012. Existem quatro deles no mundo: dois com a direção na direita, que que já passaram por testes na Grã-Bretanha, Japão e Cingapura, e outros dois com a direção na esquerda. Um deles ficou no Rio em testes com a FedEx, distribuindo encomendas pela cidade por quatro semanas – mas já se juntou a outro protótipo nos Estados Unidos.
O e-NV200 usa praticamente a mesma base elétrica do Leaf, o hatch "verde" que soma mais de 100 mil unidades e que já é relativamente conhecido do público carioca e paulistano. O modelo roda no Rio e em São Paulo como táxi – na Cidade Maravilhosa, ainda serve de carro da Polícia Militar e, em breve, como viatura apoio do Corpo de Bombeiros.
O motor elétrico de 80kW gera 108cv de potência e vai instalado sob o capô dianteiro, alimentado por um conjunto de baterias de íon-lítio que ficam debaixo do assoalho do compartimento de carga. Ainda não há dados precisos, mas a autonomia do furgão é semelhante à do Leaf: entre 150km a 160km. Segundo a Nissan, as baterias pesam 300 quilos (em conjunto com o módulo de controle) e têm vida útil de oito a dez anos.
Entro no furgão e já fico com vontade de tentar uma vaguinha na FedEx. Até esqueço meus joelhos, que esbarram na porta e no console central. O volante bem inclinado agrada de cara e é o cartão de visitas da boa ergonomia do carro. Não chega a ser horizontal como o de uma Kombi, mas torna a condução mais divertida.
A posição de dirigir elevada dá ao motorista uma boa visão das pontas do carro. Em conjunto com os amplos espelhos retrovisores verticais, é fácil ver tudo que ocorre à volta do furgão de 4,40 metros de comprimento e 1,69m de largura.
Aproveito para ver como é estacionar o bicho. Sem complicações: ao engatar a ré, um apito sonoro alerta aos pedestres distraídos, e a direção com assistência elétrica segue a lei do menor esforço. Há ainda aquela "mãozinha" do sensor de estacionamento com câmera de ré – que não estava instalada no protótipo, mas que será item de série no modelo de produção.
Vamos para a rua!
Um breve passeio pela região da Tijuca, Zona Norte carioca, é o suficiente para comprovar como o furgãozinho é bacana. Ao se pisar forte, o e-NV200 responde de imediato, característica típica dos elétricos (o torque máximo de aproximadamente 26kgfm está disponível a 1rpm...).
Outra receita básica dos elétricos no furgão da Nissan é o câmbio do tipo CVT – continuamente variável. Desta forma, as acelerações são bem lineares e progressivas. Piso mais forte e o velocímetro digital sobe (quase) como um cronômetro, enquanto aquele assovio fica mais fino. A disposição do motor para mover os 1.700kg do modelo supreende. Mérito do torque máximo em todas as faixas.
Vale observar que o e-NV200 estava vazio. O furgão tem capacidade para levar 700kg, com um compartimento de carga com duas portas laterais e uma traseira, e capacidade de 4,2m³. Mesmo sem nada lá dentro, o veículo tem um bom comportamento dinâmico: passa segurança nas curvas, sem inclinar demais a carroceria com 1,86m de altura.
Nem tudo são flores. Se quiser aquela autonomia de 150km, é preciso cadenciar a condução para um ritmo ecologicamente correto. Ao apertar o botão "Eco" no painel central, as respostas do motor ficam lerdas e o furgão demora a embalar. A compensação vem no painel: de bate pronto, o mostrador da autonomia dá uns 4km de lambuja. Sem o "Eco", com sorte consegue-se rodar 90km...
A cada desaceleração, barrinhas verdes indicam que as baterias recebem um sopro de autonomia. No e-NV200, há um truque para aumentar esta "mãozinha". Com um leve toque para o lado na alavanca do câmbio, o modelo entra no modo "B", de "Break", que aumenta a regeneração de energia.
A sensação é de um freio motor como nos automóveis convencionais. Ao tirar o pé do acelerador repentinamente, o sistema segura bem o carro, com um leve tranco. As barrinhas verdes do quadro de instrumentos ficam mais frenéticas.
Pelo painel pode-se ainda acompanhar a autonomia, a carga da bateria e o tempo necessário para dar carga máxima. Em tomadas 220v convencionais, o e-NV200 precisa de oito a 10 horas para ser carregado completamente. Em postos especiais de recarga rápida, bastam 30 minutos para se ter 80% da energia.
Com produção em Barcelona, na Espanha, a versão feita em série será vendida na Europa entre abril e maio. Na Ásia, as vendas começam no segundo semestre. Além do furgão, haverá uma versão para passageiros, com sete lugares.
Por aqui, nenhuma previsão. A Nissan aguarda o governo decidir sobre a tributação para elétricos, o que deverá ocorrer entre março e abril. Mesmo com a questão de alíquotas definidas, as vendas de um modelo como o e-NV200 e o Leaf dependem, ainda, de infraestrutura – é uma odisséia, por exemplo, achar uma tomada 220v aterrada no Rio.
Mas o retorno do e-NV200 às ruas cariocas é quase certo para daqui a dois anos, já como carro de produção em série. A versão de passageiros do modelo elétrico vai chamar a atenção com seu assovio para transportar autoridades durante os Jogos Olímpicos de 2016, patrocinados pela Nissan.