Ferrari em forma de ovo será leiloada
Ferrari 166 MM/212 Export Uovo será vendida em agosto, no evento de clássicos de Monterey
Por Redação Auto News Brasil
Antigamente, boa parte dos carros recebia carrocerias feitas sob encomenda ou pequena escala por encarroçadoras. Isso dava uma certa liberdade para ousar nas formas, como bem atesta essa Ferrari 166 MM/212 Export 1950, cujas formas renderam-lhe o apelido de Uovo, ou ovo em italiano. O distinto modelo feito pela Carrozzeria Fontana é o único carro anunciado por ora pela RM Auctions para o leilão da semana de clássicos de Monterey, Califórnia, onde se desenrola o famoso concurso de antigos de Pebble Beach. Ainda não há valor estimado, contudo, podemos esperar por muitos milhões.
Faltam ainda quase cinco meses para o evento, a ser realizado entre os dias 18 e 19 de agosto, mas a raridade desse carro pede por essa antecedência toda. Só há uma Ferrari deste tipo, o que faz esse cupê ser ainda mais raro do que as 166 MM Berlinetta Le Mans (seis unidades).
Curiosamente, a Uovo foi pensada mais na função do que na forma. A carroceria de alumínio tem formas aerodinâmicas para atingir velocidades maiores e economizar combustível. Algo que valeria ouro nas corridas mais longas como a Mille Miglia. O MM dessa versão da 166 diz respeito justamente ao evento, onde a antecessora 166 S se consagrou nos anos de 1948 e 1949.
Não foi só Lamborghini que brigou com Enzo
A despeito do sucesso, a 166 S poderia ser aperfeiçoada. A carroceria Barchetta feita pela Touring, um conversível para dois que lembra um barquinho em suas formas, não era ideal para velocidades altas. Foi exatamente o que argumentou o Conde Giannino Marzotto, o mais jovem ganhador da Mille Miglia e membro de uma família de endinheirados, o que permitiu a ele e seu irmão Vittorio apostarem nas pistas.
Vencedor em 1950, o piloto de 22 anos (falecido em 2012) era tão rico que chegava a correr vestido com um paletó de três peças. Mesmo após a consagração, Guiannino sentiu que a Ferrari 166 S poderia melhorar em alguns pontos e foi reclamar no ouvido de Enzo Ferrari. Claro que o comendador ignorou suas críticas e Marzotto procurou a empresa de Sergio Reggiani e Paolo Fontana para dar uma nova forma ao chassi de número 24, feito em 1950 como uma 166 MM Touring Barchetta e acidentado na Mille Miglia daquele mesmo ano.
Não havia túnel de vento e Marzotto se baseou em um único instrumento na hora de desenhar o seu futuro carro de corridas: o olhômetro. A carroceria baixinha reservava espaço apenas para o longo capô, perfeito para acomodar o motor maior da Ferrari 212, o que explica o nome misto do carro. Com 2,5 litros contra 2,0 litros dos V12 menores, o doze cilindros gerava 150 cv originalmente e foi preparado para entregar mais de 180 cv pelos irmãos. O câmbio manual de cinco marchas era o mesmo de série.
O para-brisa envolvente se integra perfeitamente ao teto baixo. Mas é a traseira que lhe rendeu o apelido de ovo. Alta e arredondada, ela acomoda um enorme tanque de combustível e o estepe logo acima.
Foram cortados mais de 90 kg graças ao uso de uma liga de duralumínio mais leve. A construção tubular do chassi foi mantida, tal como as suspensões duplo A na frente e eixo rígido atrás. O resultado chegou a ser exibido para o Comendador, que desdenhou dos irmãos corredores e reforçou que competiria oficialmente contra eles.
Embora funcional, o estilo não deixava de pregar peças. O para-brisa envolvente ao estilo do Lancia Stratos até evitava reflexos, mas os limpadores não eram capazes de manter o contato com o vidro sob chuva pesada. Tudo bem, bastava o motorista ir além dos 160 km/h para a aerodinâmica limpar a superfície envidraçada. O carro também saia mais de traseira em razão do deslocamento de peso do motorista, que passou a ficar sentado em uma posição muito recuada.
Marzotto chegou a liderar a Mille Miglia de 1951 e o Giro di Sicilia, contudo, abandonou ambas as provas. Nos anos 50, o cupê chegou a competir ainda em vários eventos pela Itália e também na Califórnia. O modelo foi adquirido pelo dono atual em 1986 e, desde então, apareceu rapidamente na Mille Miglia Storica e também foi exibido no Museo Enzo Ferrari. Como algumas obras de arte, o Uovo não tem sido visto em público nos últimos 20 anos, com exceção de uma breve aparição no museu da marca.