Shaolin, Osmar Santos e cães

Penas muito brandas e falta de fiscalização geram impunidade

Por Marcus Vinicius Gasques


Leio a notícia de que Francisco Jozenilton Veloso morreu na madrugada desta quinta-feira, 14, mesmo dia em que a morte do ator britânico Alan Hickman, de 69 anos, dominou o noticiário do mundo artístico. Não conhecia Shaolin, como era conhecido o comediante de 44 anos de idade. Li que ele se projetou em programas de humor até cinco anos trás, quando sua carreira foi abruptamente interrompida por um acidente rodoviário.

Francisco Jozenilton Veloso, o Shaolin (Foto: Divulgação) — Foto: Auto Esporte

No dia 18 de janeiro de 2011, Shaolin dirigia na BR-230, em Campina Grande (PB), quando um caminhão trafegando em sentido contrário invadiu a faixa e bateu em seu carro. O comediante passou por várias cirurgias, e não mais podia andar ou falar. Apenas no ano passado, segundo sua esposa Laudiceia, Shaolin começou a se comunicar com a família com expressões do rosto. No começo da semana, foi internado com infecção respiratória, quadro que se agravou até a morte.

Jobson Clemente, motorista do caminhão que bateu no carro de Shaolin, foi condenado ainda em 2011 a dois anos em regime aberto. A pena foi convertida em prestação de serviços à comunidade e pagamento de três salários mínimos. O Ministério Público a considerou muito branda e pediu sua revisão em 2012, pedido negado em outubro de 2015.

Em 22 de dezembro de 1994, após tomar algumas doses em um bar, Jarbas Martins foi para a BR-153 com seu caminhão. Às 21h10, sob forte chuva, resolveu manobrar em um ponto de visibilidade limitada na estrada. O motorista de um Mercedes-Benz que seguia para a cidade de Lins ainda tentou desviar do veículo atravessado na pista, mas bateu na quina de sua carroceria. Ao volante do carro estava Osmar Santos, um dos locutores esportivos mais criativos e populares do país.

Aos 45 anos, Osmar teve sua carreira encerrada nesse acidente. Hoje mal fala. O caminhoneiro Jarbas Martins, também conhecido como Jabá, fugiu do local do acidente sem socorrer sua vítima. Foi identificado, julgado e condenado por lesão corporal dolosa; então com 42 anos, cumpriu pena em regime aberto, teve a habilitação suspensa por um período, mas em seguida sua vida voltou ao normal.

Isso até o início da manhã de 14 de setembro de 2007, quando, ao volante de um caminhão Mercedes-Benz amarelo transportando mais de 11 toneladas de carne, Jarbas Martins capotou no quilômetro 29 da rodovia MS-157. Morreu no local, aos 55 anos. Segundo reportagem do jornal "O Progresso", de Dourados, "a polícia acredita que aparentemente ele tenha dormido no volante, saiu da pista e caiu em um barranco".

Não se trata de estigmatizar motoristas de caminhão, até porque vejo condutores de carros e até motos fazendo manobras estapafúrdias diante de veículos pesados. Esses profissionais enfrentam longas jornadas, baixa remuneração e condições precárias em muitas estradas. Mas é fato que eles têm nas mãos veículos pesados, e deveria se esperar, além de uma formação técnica e psicológica impecável, extremo cuidado na formação.

Esse cuidado deveria incluir critérios rigorosos na concessão de habilitação a condutores de veículos pesados. Quando adolescente, calhou de conhecer um jovem de Santa Catarina cujo pai era caminhoneiro. Não lembro seu nome, mas não esqueço a história que contou uma vez: “Sempre que dá, meu pai atropela cachorros porque gosta de ouvir o barulho que faz.”

Penso que uma pessoa com essa mentalidade nunca poderia ter um caminhão nas mãos.

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